Livro I – A Flecha e o Véu — Capítulo 9

A Primeira Luz

Depois do despertar do arco na caverna, Cristal retorna a Sagittaria ferida, exausta e carregando um símbolo que o reino já começa a transformar em esperança. Enquanto o conselho tenta entender o alcance do ocorrido, Erik permanece ao lado dela como testemunha silenciosa de uma mudança que já não pode ser contida.

A caverna ainda ardia na memória de todos.

Não pelo calor das chamas, mas pela luz que se acendeu quando ninguém esperava mais do que medo, pedra e morte.

Os soldados que haviam entrado nas montanhas ao lado de Erik voltaram diferentes. Falavam pouco, olhavam demais e, quando tentavam contar o que tinham visto, pareciam perceber no meio da frase que certas coisas não aceitam resumo sem perder alguma parte importante de si.

Cristal voltou com eles.

Viva.

Ferida.

Exausta.

E com o arco.

O retorno dela ao castelo não foi tratado como desfile, anúncio oficial ou triunfo militar. Não houve trombeta. Não houve proclamação.

Mas nem por isso foi discreto.

Certas mudanças entram num lugar sem precisar pedir passagem.

Quando atravessou os portões de Sagittaria, já era começo da noite. O céu estava coberto por nuvens pesadas, e o cinza delas deixava o castelo sob uma luz sem hora definida, como se o dia não soubesse se ainda queria continuar.

Servos interromperam o caminho no meio das tarefas. Guardas se entreolharam antes de fingirem que estavam apenas atentos à troca de turno. Um velho nobre, ao passar pela lateral do pátio, desviou o olhar com força demais para parecer casual.

O arco repousava nas costas de Cristal, coberto por um pano simples.

Mal coberto.

O tecido escondia a forma, mas não o peso. Nem a presença.

Havia alguma coisa naquela arma que fazia até quem não sabia exatamente o que via perceber que não se tratava de madeira comum, metal raro ou simples prêmio de caça.

Era o tipo de objeto que mudava o ar ao redor.

Erik caminhava ao lado dela.

Não como guarda.

Não como escolta.

Como testemunha.

Atrás dos dois, alguns soldados da patrulha ainda vinham em silêncio, sujos de pedra, fuligem e cansaço. Ninguém parecia disposto a dormir antes de colocar o corpo em lugar seguro e a cabeça numa distância mínima do que havia acontecido.

Mesmo assim, o castelo inteiro já começava a ouvir a história antes da história ser contada.

No corredor de acesso ao pátio interno, uma criada murmurou para outra:

— Dizem que o símbolo apareceu na armadura dela.

A outra respondeu sem baixar o tom o bastante:

— Dizem que a montanha inteira brilhou.

Mais adiante, um guarda sussurrou:

— Eu ouvi que a criatura se ajoelhou.

O colega balançou a cabeça.

— Você ouviu errado.

— Talvez.

— Talvez não.

Foi assim que a notícia correu.

Não por decreto.

Por tensão.

Cristal seguiu sem olhar para os lados. O rosto ainda trazia fuligem seca perto da linha do cabelo. Havia um corte fino ao lado do rosto, já escurecido pelo sangue coagulado. A manga de um dos braços estava marcada pelo fogo.

E, sob as placas da armadura, o símbolo de Sagitário ainda brilhava fraco, como brasa contida sob metal.

Erik percebeu quando ela reduziu um pouco o passo.

— Está piorando? — perguntou, baixo.

— Só agora o corpo lembrou que foi atingido.

— Isso seria um jeito ruim de cair no meio do corredor.

Ela soltou um ar curto, quase riso.

— Obrigada pelo incentivo.

— Estou sendo objetivo.

— Você sempre diz isso como se melhorasse.

Ele não respondeu.

No fundo, estava observando mais do que admitiria ali: o peso do arco sobre ela, o cansaço no modo como os ombros começavam a ceder, o cuidado excessivo com que pisava ao contornar a escada curta do pátio central.

O problema de sobreviver a um momento como aquele é que o corpo costuma cobrar sua parte quando todos ao redor já começaram a chamar a cena de lenda.

Cristal parou por um instante na base da escadaria que levava à ala interna.

Erik acompanhou a pausa.

— Quer que eu mande chamar alguém?

Ela já sabia o que ele queria dizer com “alguém”.

— Não.

— Problemática?

— Não.

— Mariel?

Cristal virou o rosto para ele com exaustão honesta.

— Erik, eu só quero chegar ao meu quarto antes que o castelo inteiro tente me transformar em símbolo.

Isso o fez calar.

Porque ela tinha razão.

O problema é que já era tarde.

Naquela mesma hora, em mais de um corredor, o nome dela começava a ser trocado por expressões que a afastavam de ser simplesmente ela:

a escolhida
a portadora
a flecha viva
a luz de Sagittaria

Nenhuma dessas palavras ajudaria a curar o corte em seu rosto, a queimadura em seu braço ou a tensão presa nos joelhos depois de enfrentar um guardião antigo sozinha dentro de uma montanha.

Quando enfim alcançou os aposentos, Cristal só conseguiu retirar parte da armadura antes que o aviso chegasse.

Não por servo tímido.

Por selo.

Um pequeno cilindro de metal, marcado com o sinal do conselho, foi entregue por um guarda antigo demais para fingir que não entendia o peso daquilo.

Cristal rompeu o lacre ainda de pé.

Leu.

Depois releu.

Erik esperou.

— Reunião extraordinária — ela disse.

— Agora?

— Ao amanhecer.

Ele assentiu.

— Então ainda dá tempo de você deitar por algumas horas.

Cristal ergueu o pergaminho como quem avaliava até onde podia arremessá-lo sem perder a dignidade.

— Assunto: manifestação do símbolo de Sagitário. Presença solicitada: Senhorita Cristal. Oficial Erik. Ordem real.

Erik ouviu a palavra que mais o incomodava ali.

— “Solicitada”.

— Eu notei.

— Eles gostam de fingir delicadeza quando já decidiram tudo.

Cristal pousou o pergaminho sobre a mesa.

— Não decidiram tudo.

— Não?

Ela olhou para o arco encostado perto da parede.

— Ainda não sabem o que fazer comigo.

Erik sustentou o olhar por um segundo.

— Isso me preocupa menos do que devia.

— Por quê?

— Porque, depois de hoje, talvez o problema não seja mais o que eles fazem com você.

Cristal ficou em silêncio.

— Talvez seja o que o reino inteiro espera que você faça por ele.

Essa frase ficou entre os dois mais tempo do que qualquer um gostaria.

Na manhã seguinte, o castelo estava desperto antes do nascer completo do sol.

O salão do Conselho Velado era uma câmara antiga, de teto alto, mesa oval e paredes de pedra escura cobertas por tapeçarias desgastadas pelo tempo. Doze cadeiras cercavam a mesa. Apenas nove estavam ocupadas.

Havia espaço suficiente entre uma e outra para lembrar a todos que poder e confiança nunca dividiram assento com facilidade.

Na cabeceira, Conselheiro Orvan lia um pergaminho apoiado sobre a madeira. Os dedos tremiam um pouco, efeito da idade mais do que do medo, mas a voz, quando enfim rompeu o silêncio, saiu firme.

— A última vez que este símbolo apareceu em registro formal — disse ele, sem erguer os olhos — foi em período de guerra aberta. Mesmo então, houve quem o chamasse de mito.

À esquerda dele, Lady Celthra observava Cristal com interesse quase elegante demais para ser conforto. O manto azul que usava parecia leve demais para o frio do salão.

O sorriso, leve demais para a ocasião.

— O povo já decidiu no que quer acreditar — disse Celthra. — A questão agora é o que nós vamos fazer com essa crença.

Erik não gostou do modo como ela disse “essa”.

Cristal entrou no centro da sala sem o pano sobre o arco. O símbolo no peito da armadura não brilhava com a violência do dia anterior, mas ainda estava ali, visível o bastante para impedir qualquer fingimento conveniente.

Os conselheiros olharam.

Alguns com reverência.

Outros com cálculo.

Outros com medo mal disfarçado.

Orvan finalmente levantou o rosto.

— Senhorita Cristal — disse ele. — Oficial Erik.

Erik conteve o impulso de responder ao tom seco.

Não era hora.

Cristal parou junto à borda da mesa.

— Fui convocada. Estou aqui.

Não havia desafio direto na voz dela.

Mas também não havia submissão.

Isso fez diferença na sala.

Um conselheiro mais novo, de barba curta e mãos limpas demais para qualquer função relevante fora de paredes internas, apoiou os dedos na mesa e falou primeiro do que devia:

— O reino inteiro comenta o ocorrido nas montanhas. Alguns dizem que houve bênção. Outros, que foi uma manifestação perigosa demais para ser celebrada sem cautela.

— “Perigosa demais” — repetiu Erik, antes que Cristal respondesse. — É uma expressão curiosa para usar quando ela voltou viva trazendo consigo exatamente o que impediu que aquela criatura saísse da caverna para o resto do reino.

O conselheiro não gostou do corte.

— Estou falando de impacto político.

— E eu estou falando de realidade.

Orvan ergueu a mão, encerrando a troca antes que crescesse.

— Ninguém aqui ignora o que ocorreu. Mas também não podemos fingir que o aparecimento desse símbolo não muda a posição de Cristal dentro de Sagittaria.

Cristal ouviu aquilo sem baixar os olhos.

— Minha posição já mudou no momento em que entrei naquela caverna.

Lady Celthra inclinou a cabeça.

— E a senhorita sabia disso?

Cristal demorou meio segundo mais do que o ideal.

— Não inteira.

— Mas foi mesmo assim.

— Fui.

Um outro conselheiro, mais velho, com voz fraca e língua afiada pelo hábito de sobreviver a reinados diferentes, ajeitou o manto e disse:

— O povo gosta de sinais. O problema dos sinais é que, depois de um tempo, começa a esperar governo deles.

Erik percebeu o golpe antes de todos na mesa.

Cristal também.

— Se quer dizer alguma coisa, diga inteira — ela respondeu.

O homem recuou meio tom.

— Quero dizer que a senhora agora representa mais do que uma herdeira respeitada. Representa uma possibilidade. E possibilidades, quando o povo se agarra a elas, deixam de pertencer a quem as carrega.

Isso era inteligente o bastante para ser perigoso.

Antes que a sala escolhesse para onde penderia, Orvan voltou ao centro.

— O conselho precisa de uma resposta simples por enquanto. O arco que carrega é o mesmo da profecia?

Ninguém respirou direito por um instante.

Cristal olhou para a madeira curva repousando ao lado do corpo, ainda sem ornamento de corte, ainda com a aparência direta e antiga de coisa despertada, não fabricada.

— Eu não posso provar isso do modo que o senhor gostaria — disse ela. — Mas posso dizer que ele me reconheceu. E que o fogo que deveria destruí-lo o despertou.

Orvan absorveu a resposta.

— Isso basta para registro preliminar.

Erik conteve a irritação.

Registro preliminar.

Como se a montanha inteira não tivesse testemunhado outra coisa.

Celthra então falou de novo, mais suave que antes.

— E quanto ao símbolo em sua armadura?

Cristal baixou os olhos por um instante. O brilho estava menos forte, mas ainda percorria discretamente as linhas do metal.

— Eu não o coloquei ali.

— Isso é óbvio — murmurou o conselheiro mais jovem.

Erik virou o rosto para ele de forma tão clara que o homem decidiu não repetir nada.

Orvan apoiou o pergaminho sobre a mesa.

— O conselho não decidirá mais do que o necessário hoje. Mas alguns pontos ficam estabelecidos. Primeiro: o ocorrido nas montanhas não será tratado como rumor descontrolado. Segundo: o objeto retornado da caverna ficará sob guarda de Cristal até segunda avaliação. Terceiro: nenhuma proclamação pública será feita antes de compreendermos melhor o alcance do que se manifestou.

Cristal ouviu aquilo com calma.

— O povo já está proclamando por conta própria.

Orvan assentiu, cansado.

— Eu sei.

E essa talvez fosse a frase mais honesta dita naquela sala.

A reunião se encerrou sem cerimônia maior.

Não porque o assunto fosse pequeno.

Porque era grande demais para caber numa decisão única de amanhecer.

Os conselheiros saíram em grupos curtos, alguns evitando encarar Cristal diretamente, outros fazendo o oposto.

Quando o salão enfim esvaziou, restaram apenas Cristal e Erik junto à porta lateral.

Ele esperou até que o último conselheiro desaparecesse no corredor antes de falar:

— “Registro preliminar” foi quase ofensivo.

Cristal soltou o ar devagar.

— Para eles, transformar em registro é uma forma de não parecer que estão com medo.

— E estão?

Ela pensou por um instante.

— Alguns sim. Outros estão tentando descobrir se eu sirvo melhor como esperança ou como problema.

Erik cruzou os braços.

— Eu tenho uma opinião simples sobre quem tentar a segunda opção.

Cristal quase sorriu, mas o cansaço não deixou o gesto se formar inteiro.

— Eu sei.

Saíram da sala em silêncio.

O castelo parecia o mesmo de sempre — tochas acesas, passos nos corredores, guardas em troca de turno, vozes baixas nas alas mais distantes.

Mas nada estava no mesmo lugar de antes.

Bastava atravessar dois corredores para perceber.

Servos abriam passagem cedo demais. Soldados se endireitavam quando ela passava. Gente que antes a tratava como presença secundária agora a observava como se esperasse sinal, resposta ou perigo.

No fim da tarde, Cristal subiu sozinha até o parapeito alto da ala sul.

Dali, as montanhas apareciam em linha escura contra o céu pesado. O vento era mais forte, mais limpo e menos mentiroso do que o ar dos salões internos.

Ela apoiou os braços na pedra e ficou olhando o horizonte por um longo tempo, sem tentar organizar tudo o que já começava a cair sobre ela.

O arco estava guardado em seus aposentos.

O símbolo permanecia na armadura.

O povo já começava a falar.

E o reino inteiro, ainda sem entender o tamanho do que acontecera na caverna, já reagia à presença dela como se alguma linha antiga tivesse sido puxada de volta para a superfície.

Passos firmes soaram atrás.

Erik.

Ele parou ao lado dela sem perguntar se podia.

— Você deveria descansar — disse.

Cristal não tirou os olhos das montanhas.

— Você devia parar de repetir isso como se eu fosse obedecer só porque mudou o tom.

Erik soltou um pequeno riso pelo nariz.

— Um dia funciona.

— Hoje não.

O vento passou entre os dois.

Nenhum deles falou por alguns segundos.

Foi Erik quem quebrou a pausa:

— Eles vão continuar olhando.

— Eu sei.

— E falando.

— Também sei.

Cristal apertou um pouco os dedos na borda do parapeito.

— O que eu ainda não sei é o que fazer com isso.

Erik olhou o perfil dela, depois o horizonte.

— Hoje, nada.

Ela virou o rosto.

— Nada?

— Hoje você continua de pé. Amanhã a gente resolve o resto.

Cristal sustentou o olhar dele por um instante e então voltou a encarar as montanhas.

Aquilo não resolvia nada.

Mas, naquela noite, era o suficiente.

Bem abaixo da linha do parapeito, quase escondido sob o tecido preso ao cinto, Erik mantinha consigo o pequeno fragmento de metal recolhido na caverna.

Não o mostrou.

Não falou dele.

Só sentiu o peso discreto da peça junto ao corpo, como se algum tipo de promessa ainda sem nome tivesse escolhido esperar.

Ao longe, o céu começava a escurecer.

E Sagittaria, sem entender por completo, já iniciava uma nova forma de vigília.