Livro I – A Flecha e o Véu — Capítulo 12

A Escolha dos Dois

Nas semanas após o despertar do arco, Cristal e Erik enfrentam o peso silencioso da mudança que começou na caverna. Enquanto ela percebe que o reino já a enxerga como símbolo, ele revela sua decisão de não permanecer apenas como testemunha. Entre o fragmento de metal deixado pelo fogo antigo, a partida de Jean e a promessa de permanecerem lado a lado, os dois fazem uma escolha que mudará o rumo da história.

Naquelas semanas anteriores ao primeiro retorno de Jean, logo depois do despertar do arco na montanha e antes que as vozes no Véu começassem a tocar o castelo de forma aberta, houve uma escolha.

Não diante do povo.

Não no salão do conselho.

Não sob juramento, coroa ou registro formal.

Houve uma escolha entre duas pessoas que ainda tentavam entender o que estavam se tornando — e se estavam prontas para aceitar que o reino também já começara a enxergá-las de outro modo.

O céu de Sagittaria estava coberto por nuvens baixas, e o vento do sul batia com força suficiente para fazer as bandeiras no alto da torre mais antiga estalarem de tempos em tempos. O pátio lá embaixo já havia esvaziado. Restavam poucos guardas em troca de turno, um ou outro servo recolhendo o que ficara para trás, e aquele silêncio específico das horas em que o castelo parece descansar sem, de fato, dormir.

Cristal treinava sozinha.

Os alvos de madeira ao fundo da plataforma já estavam marcados por flechas repetidas no mesmo ponto. O arco descansava encostado à parede entre uma sequência e outra, e cada vez que ela o erguia sentia o mesmo misto de familiaridade e espanto. O peso estava certo na mão. O ajuste da curva, também. Mas ainda havia momentos em que, por um segundo curto e incômodo, lhe parecia absurdo demais que aquilo agora pertencesse à sua vida.

Ou que sua vida agora pertencesse àquilo.

Ela soltou a corda uma última vez, viu a flecha atingir o centro mais gasto do alvo e então abaixou o braço. O ombro direito doía. A palma da mão, mesmo protegida, ainda guardava a memória do atrito. O corte na lateral do rosto quase não incomodava mais. O resto, sim.

Cansaço tem muitos nomes quando ninguém o chama em voz alta.

Erik chegou sem fazer barulho desnecessário. Como quase sempre. Passou pela escada de pedra, contornou a coluna estreita do alto da torre e só parou quando já estava perto o bastante para que a voz não precisasse subir.

— Você deveria descansar, Cristal.

Ela não se virou de imediato. Tirou a flecha do arco, colocou-a de volta na aljava e só então respondeu:

— E você deveria parar de aparecer atrás de mim como se eu fosse quebrar.

Erik soltou um breve riso pelo nariz.

— Você já se partiu algumas vezes e nunca quebrou.

Cristal se virou, apoiando o arco no ombro.

— Isso não foi tão reconfortante quanto você acha.

— Eu não estava tentando reconfortar.

— Eu sei.

O vento passou entre os dois, frio e seco. Daquela altura, as montanhas pareciam mais próximas do que realmente eram. O castelo, abaixo, parecia menor.

Ela foi até o parapeito de pedra e apoiou as mãos ali.

Erik se aproximou sem pressa.

Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio, olhando a linha escura do horizonte.

Cristal falou primeiro.

— Estão começando a falar.

— Sobre o quê?

Ela lhe lançou um olhar rápido.

— Você sabe.

Erik assentiu.

— Sobre o arco.

— Sobre o arco. Sobre o símbolo. Sobre o que aconteceu na montanha. Sobre mim. — Ela soltou o ar devagar. — Agora, quando atravesso um corredor, as pessoas me olham como se eu já não fosse uma pessoa inteira. Como se eu fosse metade resposta e metade problema.

Erik se encostou no parapeito ao lado dela.

— O reino precisa de alguma coisa em que acreditar.

Cristal não respondeu logo.

— Isso não me tranquiliza.

— Não era para tranquilizar.

Ela baixou os olhos para o pátio. Dois soldados cruzavam o espaço central discutindo baixo demais para serem entendidos. Um deles olhou para cima, viu os dois na torre e logo desviou.

— Antes era mais simples — murmurou ela.

— Era mais silencioso.

Cristal inclinou levemente a cabeça.

— Você diz isso como se fosse diferente.

— Nem sempre é.

Ela soltou um quase sorriso.

— Você está impossível hoje.

— Hoje?

Cristal não sustentou a brincadeira. O peso voltava rápido demais.

— Erik... — disse ela, voltando os olhos para o horizonte. — Se tudo isso for mesmo o começo de alguma coisa maior... se o que aconteceu na caverna não for só um evento isolado... se houver mesmo algo nos observando desde antes...

Ela parou.

Não por falta de palavras. Por medo do que viria se as organizasse direito.

Erik esperou.

Não a empurrou. Não completou por ela. Só esperou.

Cristal então virou o rosto e o encarou.

— Você estaria ao meu lado?

A resposta veio com a simplicidade perigosa de tudo que já foi decidido antes mesmo de ser perguntado.

— Sempre estive.

Ela continuou olhando para ele.

Erik sustentou o olhar.

— Mas isso não é sobre destino — acrescentou, com mais firmeza. — É sobre decisão.

O vento bateu mais forte na lateral da torre, fazendo a capa dele se mover contra a pedra.

Cristal baixou os olhos por um instante.

Aquela frase não tirava o peso de nada. Não a livrava do símbolo, do arco, do conselho, do povo ou do que quer que começava a se mover entre ruínas, espelhos e vozes. Mas devolvia uma coisa que as profecias costumam tentar roubar cedo demais:

escolha.

— Eu não sei se quero virar o que eles esperam — disse ela, sem dramatização. — Não sei se quero ser essa... imagem.

— Então não seja imagem.

Ela ergueu as sobrancelhas, cansada.

— Isso ficou bonito. E inútil.

— Ótimo. Estou melhorando.

Apesar de tudo, Cristal riu, baixo.

Erik só então colocou sobre a pedra um pequeno embrulho de tecido escuro. Abriu-o com cuidado.

No centro descansava o fragmento de metal dourado recolhido na caverna.

Mesmo agora, longe do fogo antigo e do corpo do dragão, ainda havia um calor discreto preso na matéria, como se a peça se lembrasse do lugar de onde veio com mais fidelidade do que o resto do mundo.

Cristal pousou os olhos nele.

— Você trouxe isso.

— Trouxe.

— Para me mostrar ou para me lembrar de que tudo piorou?

— As duas coisas.

Ela passou a ponta dos dedos perto do metal, sem tocar.

— Ele ainda parece vivo.

— Parece.

— O que você pretende fazer com isso?

Erik olhou a peça por alguns segundos antes de responder.

— Forjá-lo.

Cristal ergueu os olhos.

— Em quê?

Ele não demorou muito.

— Numa espada.

A resposta não veio como exibição de ambição. Veio como decisão simples, quase austera. Isso fez diferença.

Cristal apoiou o peso de um lado do corpo sobre a pedra.

— Já decidiu?

— Sim.

— Sozinho?

— Não exatamente.

Ela esperou.

Erik fechou o tecido até metade, deixando o metal ainda visível.

— Você encontrou o arco. O reino vai olhar para você e ver luz, escolha, sinal, tudo o que quiser chamar assim. — Ele respirou uma vez, fundo. — Eu não vou ficar parado ao lado disso fingindo que meu papel é só assistir.

Cristal não quebrou o olhar.

— Então qual é o seu papel?

Erik a encarou de volta.

— Ser o que sustenta quando a parte visível atrai tudo.

O silêncio seguinte foi curto, mas cheio.

Porque aquilo era mais íntimo do que qualquer declaração direta. Era mais perigoso também.

Cristal conhecia o bastante dele para entender que aquela não era fala lançada pelo peso do momento. Era daquelas decisões que alguém toma internamente e, depois, passa a viver como se o mundo apenas tivesse chegado tarde à notícia.

— Você fala como se já tivesse aceitado isso há muito tempo.

— Talvez eu tenha.

— E quando pretendia me contar?

Erik recolheu o tecido e guardou o metal no cinto.

— Agora pareceu um bom momento.

Cristal respirou fundo.

Os olhos ardiam um pouco, não por fraqueza, mas por um tipo de alívio que ela não queria nomear cedo demais.

— E essa espada — disse ela, depois de alguns segundos. — Já tem nome?

Erik soltou um pequeno sopro pelo nariz.

— Ainda não.

— Nem uma ideia?

— Tenho a ideia. Falta o resto.

Ela quase sorriu.

— Isso é irritantemente vago.

— Eu sei.

A porta da torre se abriu.

Nenhum dos dois chegou a se afastar um do outro antes de Jean surgir no topo da escada, como se já soubesse exatamente quando interromper sem parecer realmente intruso.

Vestia a mesma roupa de viagem de sempre, simples demais para o tanto de lugares por onde passava, e trazia no rosto a mesma expressão de quem dorme mal há tempo suficiente para ter feito as pazes com isso.

Parou a poucos passos dos dois.

— Eu esperei a parte importante terminar — disse.

Cristal ergueu uma sobrancelha.

— Você ouviu quanto?

— O bastante para saber que não devo pedir para repetirem.

Erik não pareceu surpreso com a entrada. Só menos paciente.

— Você some por dias e volta com esse tipo de frase?

Jean olhou para ele.

— Eu também senti sua falta.

Cristal cruzou os braços.

— O que foi agora?

Jean veio até o parapeito, mas não se encostou. Manteve-se de pé, como sempre fazia quando o corpo parecia pronto para partir antes mesmo do fim da conversa.

— Eu vou sair do reino por um tempo.

O vento pareceu mais frio por um instante.

Cristal o observou sem falar.

Erik foi mais direto:

— Para onde?

— Leste primeiro. Depois talvez norte. Talvez as ruínas além das rotas antigas. Ainda não sei o desenho inteiro.

— Isso é uma péssima resposta — disse Erik.

— É a única honesta que tenho.

Cristal deu um passo na direção dele.

— Você vai atrás de quê?

Jean demorou um pouco mais que o normal. Não por teatralidade. Por peso.

— Da parte da história que ainda não apareceu aqui.

Ela entendeu antes de qualquer explicação maior.

— Halem.

Jean assentiu.

— E outros lugares como ela. Lugares que começaram a se mover sem pedir permissão ao mapa.

Erik cruzou os braços.

— Sozinho?

Jean olhou para os dois, e por um instante havia algo quase cansado demais para caber no humor seco habitual.

— É o jeito mais eficiente de fazer algumas perguntas sem atrair gente demais para a resposta.

Cristal não gostou da frase.

— Isso funciona bem até o momento em que você não volta.

Jean aceitou o golpe sem defesa.

— Eu sei.

Houve um silêncio breve.

Não desagradável. Só inevitável.

Cristal foi a primeira a baixar o tom.

— Você precisa mesmo ir agora?

Jean olhou para o céu coberto sobre o castelo.

— Se eu esperar mais, o reino inteiro vai começar a olhar para dentro e vai esquecer de olhar as bordas. E é nas bordas que as coisas entram primeiro quando ainda não têm nome.

Erik não discutiu a lógica. Só a consequência.

— Então volte com alguma coisa útil.

Jean quase sorriu.

— Sempre caloroso.

— Sempre.

Cristal se aproximou mais um passo.

— Você vai mandar mensagem?

Jean pensou antes de responder.

— Se conseguir.

Ela percebeu e não gostou do peso oculto no “se”.

— Não fala assim.

— É melhor do que prometer o que talvez eu não controle.

Erik desviou o olhar por um instante para o horizonte, como quem já conhecia demais o tipo de partida que não aceita conforto organizado.

Cristal ficou imóvel por alguns segundos, absorvendo.

Jean então olhou de um para o outro.

— Vocês já escolheram, não foi?

Nenhum dos dois respondeu de imediato.

Mas não precisavam.

Jean assentiu sozinho.

— Então o castelo vai começar a girar mais rápido a partir de agora.

— E você vai desaparecer bem no meio disso — disse Cristal.

— Eu vou procurar a parte que ainda está fora do alcance de vocês.

Ela queria retrucar. Queria dizer que havia outros modos, outras rotas, outros ritmos. Não disse.

Porque conhecia o suficiente dele para saber que algumas pessoas pertencem a certos tipos de distância com a mesma inevitabilidade com que outras pertencem a muralhas.

Jean tirou do cinto um pequeno pergaminho dobrado e o entregou a Erik.

— Se eu não voltar logo, procure isso.

Erik pegou sem abrir.

— O que é?

— Um nome que ainda não tenho certeza se merece ser dito em voz alta.

— Excelente. Exatamente o tipo de presente que melhora uma noite.

Jean ignorou.

Cristal observava os dois com expressão entre irritação e afeto cansado.

— Você vai mesmo embora sem nada mais digno do que isso?

Jean olhou para ela.

A voz saiu baixa, mais limpa que o costume.

— Não. Eu vim porque não queria partir sem ver vocês ainda aqui.

Essa frase calou a torre inteira.

Até o vento pareceu recuar por um instante.

Cristal engoliu em seco.

— Nós vamos estar aqui quando você voltar.

Jean não prometeu que voltaria rápido. Também não contradisse.

Apenas assentiu.

Depois desceu a escada.

Sem pressa. Sem cerimônia.

Erik e Cristal permaneceram imóveis até o som dos passos desaparecer de vez.

Só então ela voltou a olhar o céu.

— Ele sempre faz isso.

— O quê?

— Vai embora como se deixar metade da conversa com a gente fosse parte do plano.

Erik guardou o pergaminho no cinto.

— Talvez seja.

Ela apoiou os braços no parapeito de novo.

— Eu odeio quando vocês dois resolvem ser parecidos.

— Você só odeia quando isso atrasa a resposta.

— Também.

O castelo abaixo seguia aceso em alguns pontos. Daquela altura, as lanternas pareciam menores do que a responsabilidade que carregavam.

Cristal ficou em silêncio por algum tempo.

Depois falou, sem tirar os olhos do pátio lá embaixo:

— Então é isso.

— O quê? — perguntou Erik.

— Você vai forjar a espada. Jean vai buscar o que está faltando. E eu... — Ela parou. — Eu paro de fingir que ainda posso me mover dentro do castelo como se nada tivesse mudado.

Erik não apressou resposta.

— Isso assusta você?

Cristal demorou.

— Assusta.

— Então estamos falando da coisa certa.

Ela soltou um ar curto.

— Seu jeito de consolar continua ruim.

— Eu sei.

O vento passou outra vez entre eles, mas agora já não parecia tão áspero quanto no começo da noite.

Abaixo, o reino ainda não fazia ideia do tamanho do que começava ali. Acima, também não. Mas havia uma diferença importante entre não saber e se recusar a seguir.

Os dois já tinham escolhido.

Não a vitória.

Não o fim.

Não a glória.

Tinham escolhido o lado.

E às vezes, antes de qualquer profecia se cumprir, essa é a única decisão que realmente reorganiza o mundo.

Cristal virou o rosto e olhou para Erik uma última vez antes de os dois deixarem a torre.

— Se isso tudo piorar...

— Vai piorar — disse ele.

Ela quase riu.

— Você é insuportável.

— Eu sei.

— Se piorar, então fica.

Erik sustentou o olhar.

— Eu já disse que fico.

Dessa vez ela não respondeu.

Porque, entre destino e decisão, aquela era a única promessa que importava inteira.

Quando deixaram a torre, a noite sobre Sagittaria parecia a mesma.

Mas não era.

Alguma coisa invisível tinha se selado no intervalo entre a flecha já escolhida, o metal ainda sem forma, a partida silenciosa de Jean e a decisão dos dois de não recuar do lugar para o qual o mundo começava a empurrá-los.

Sem coroas.

Sem aplausos.

Sem testemunhas suficientes para chamar aquilo de cena histórica.

Ainda assim, foi ali que a história mudou de rumo.

Não com guerra.

Com escolha.

E, quando a escolha é real, o Véu sempre escuta.