Cristal já aprendera a sustentar o peso do olhar do povo. Sabia andar pelos corredores do castelo sem abaixar a cabeça. Sabia ouvir pedidos, resolver disputas, escolher palavras diante dos nobres e permanecer firme quando todos esperavam certeza dela.
Mas firmeza não era o mesmo que compreensão.
Desde o despertar da Flecha da Luz, havia momentos em que ela sentia estar vivendo por dentro de uma resposta que ainda não entendia inteira. O reino a via como sinal de renovação. O povo via esperança. Alguns viam destino. Outros, ameaça.
Ela via trabalho.
E, por trás dele, uma pergunta que não parava de voltar.
Por isso decidiu ir ao templo antigo.
Não contou ao conselho. Não convocou guarda. Não levou escolta real. Só falou com Erik na noite anterior, quando os dois ainda estavam na torre leste e o castelo começava a apagar suas últimas janelas.
Agora os dois cavalgavam por uma trilha estreita, cercada por árvores tortas e pedras cobertas de umidade. O chão cedia em alguns pontos, e os cascos dos cavalos levantavam cheiro de terra molhada a cada passo. O frio ainda era de manhã, mas o ar ali parecia mais velho do que o resto do reino.
Cristal mantinha as rédeas curtas e os olhos fixos adiante. Erik vinha ao lado, atento ao caminho, à floresta, ao som do couro da sela, ao modo como o vento parecia mais fraco naquela direção.
Depois de um trecho longo sem fala, ele perguntou:
— Ainda dá tempo de voltar.
Cristal não olhou para ele.
— Você não acredita nisso.
— Não acredito. Só queria ver se você acredita.
Ela soltou um pequeno sopro pelo nariz.
— Tarde demais.
Os galhos começaram a rarear aos poucos, e o terreno subiu em ladeira leve até que o templo apareceu entre as colinas.
Não surgiu de uma vez. Primeiro vieram as pedras altas, quase confundidas com a encosta. Depois a curva de um arco quebrado. Em seguida uma coluna inclinada, tomada por musgo. Só quando se aproximaram mais foi possível ver a estrutura inteira: circular, escura, antiga, parcialmente tomada por raízes, como se a montanha tivesse passado séculos tentando engoli-la sem conseguir.
Cristal puxou as rédeas e parou.
O cavalo bufou baixo.
Erik observou as ruínas em silêncio por alguns segundos.
— Era maior do que eu imaginava.
— Eu também achei.
— E mais inteiro.
Ela assentiu.
O templo de Orien aparecia nos registros antigos como um lugar apagado do uso, não da memória. Uma construção de povos anteriores à organização formal de Sagittaria, erguida numa época em que os homens falavam do Véu com menos metáfora e mais medo. Alguns textos diziam que ali os antigos ouviam vozes que não pertenciam ao mundo. Outros diziam que o lugar só respondia a quem fosse chamado primeiro.
Cristal desceu do cavalo e sentiu a bota afundar um pouco no barro junto à entrada. O vento passou por ela e trouxe cheiro de pedra úmida, folha apodrecida e água velha.
— Ainda acha que isso aqui é superstição? — perguntou, sem virar o rosto.
Erik desmontou ao lado.
— Depois de tudo o que já vimos? Não.
Ele puxou as rédeas do cavalo até um tronco baixo e amarrou com firmeza. O animal continuou inquieto, mexendo as orelhas e batendo uma pata no chão.
Cristal se aproximou do arco principal. As bordas da pedra estavam gastas, mas ainda havia linhas entalhadas em espiral junto à entrada. À primeira vista, pareciam rachaduras antigas. Quando ela passou os dedos pela superfície, percebeu que eram runas.
E algumas estavam reagindo.
Um brilho azul fraco correu por entre os sulcos e desapareceu logo em seguida.
Erik viu.
— As mesmas de Halem?
— Parecidas.
— Isso não me anima.
Cristal passou os dedos mais uma vez, devagar. Desta vez, o brilho demorou um pouco mais.
— Nem a mim.
Eles entraram.
A nave central era ampla, circular, sustentada por blocos escuros de pedra quase negra. O teto, parcialmente aberto em alguns pontos, deixava passar faixas pálidas de luz que não aqueciam nada. Musgo crescia entre as frestas. Raízes grossas desciam pelas paredes, mas paravam antes de tocar o centro do piso, como se evitassem alguma coisa.
Os passos dos dois deveriam ter produzido eco.
Não produziram.
Cristal percebeu isso antes de formular. O som das botas existia, mas morria logo depois de nascer. Nada voltava. Nem ruído de sola, nem couro, nem respiração. Era como se o lugar engolisse a própria acústica.
Erik já tinha a mão no cabo da espada.
— Tem alguma coisa errada aqui.
— Eu sei.
Ela caminhou até o centro. Havia ali uma espiral marcada no chão, larga o bastante para ocupar boa parte do piso interno. Não era tinta. Não era sujeira acumulada. Era parte da pedra, como se o desenho tivesse sido feito na própria construção do templo.
Cristal se ajoelhou.
A superfície estava gelada. Não pelo clima. Era outro tipo de frio, mais fundo, mais seco, como o contato com algo que não recebia luz havia muito tempo.
Ela encostou a palma da mão.
Na mesma hora, a sensação subiu pelo braço.
Não foi dor.
Foi reconhecimento.
Cristal puxou a mão de volta e respirou fundo.
Erik se aproximou um passo.
— O que foi?
— Isso aqui não está morto.
Ele olhou para a espiral, depois ao redor.
— Templo antigo, runa reagindo, chão gelado, nenhum eco... Você tem ideia do quanto isso piora essa frase?
Apesar do momento, ela quase sorriu.
— Um pouco.
Erik passou os olhos pelas paredes curvas da nave.
— O que é este lugar, então?
Cristal ainda estava ajoelhada.
— Não é só um templo.
— O que é?
Ela levou alguns segundos para responder.
— Um ponto.
— Ponto de quê?
Cristal ergueu o rosto, ainda sem se levantar.
— De ruptura.
O silêncio que veio depois não pareceu vazio. Pareceu atento.
Então as runas na entrada começaram a pulsar de novo.
Cristal se levantou devagar e virou-se. Uma das paredes, até então coberta apenas de pedra antiga e sombra, parecia diferente. O relevo estava mudando. Ou talvez sempre tivesse estado ali, esperando ângulo, luz ou presença.
Os dois se aproximaram.
O afresco surgiu aos poucos, como uma imagem molhada secando diante deles. Primeiro o contorno de um manto. Depois linhas como estrelas. Depois uma figura encapuzada com um arco nas costas e a palma de uma mão voltada para frente. No centro da palma, o símbolo de Sagitário.
Erik estreitou os olhos.
— Isso não estava aí quando entramos.
— Não.
— Então isso aqui escolhe a hora de mostrar o que guarda.
Cristal não respondeu. Havia inscrições acendendo ao lado da figura, linha após linha, em runas antigas semelhantes às que Jean havia mostrado depois de Halem.
Ela se aproximou mais.
— Você consegue ler? — perguntou Erik.
— Algumas partes.
— Algumas já são ruins o bastante.
Cristal ignorou o comentário e passou os olhos pelas inscrições, montando o sentido com cuidado.
— “Quando a luz for dada àquele que não a buscou...” — leu em voz baixa. — “...e o arco acender entre as sombras...”
Ela parou.
— “...o Véu se partirá em ecos, e o passado invadirá o presente.”
Erik deu um passo para trás.
— Isso fala de você.
Cristal continuou olhando para a parede.
— Talvez.
— “Talvez” não é uma resposta boa.
— E “isso fala de você” também não é exatamente delicado.
— Não estou tentando ser delicado.
Ela cruzou os braços, ainda encarando a figura do afresco.
— Pode falar de mim. Pode falar de outra pessoa antes de mim. Pode falar de alguém que ainda nem apareceu.
Erik ficou em silêncio por um instante.
— Você acredita nisso?
Cristal demorou.
— Eu acredito que alguma coisa aqui me reconheceu.
Isso bastou.
O chão vibrou sob os dois.
Não foi tremor forte. Foi como uma respiração enterrada. Uma pulsação curta, seguida de outra. A pedra no centro da nave pareceu ceder para dentro. A espiral marcada no piso abriu finas rachaduras, e os blocos começaram a se mover em círculos curtos, recolhendo-se para trás.
Erik puxou a espada.
— Agora sim eu tenho motivo.
A espiral se abriu como uma flor invertida e revelou uma escadaria estreita, descendo para o interior da estrutura.
O ar que subiu dali era mais frio que o restante do templo.
Cristal olhou para a abertura, depois para Erik.
— Vamos descer.
— Eu sabia que você diria isso.
— E mesmo assim veio.
— Esse foi meu erro.
Ela lançou um olhar breve para ele.
— Pode voltar se quiser.
Erik olhou para a escada escura.
— Não vou te dar esse gosto.
Desceram.
Os degraus eram estreitos, gastos nas bordas e cobertos por uma fina camada de umidade antiga. A luz azul das runas aparecia em pontos esparsos nas paredes, fraca demais para iluminar de verdade, mas suficiente para desenhar o caminho. Quanto mais desciam, mais pesado ficava o ar. Não havia cheiro de mofo puro. Havia metal, pedra fechada e alguma coisa parecida com água parada por tempo demais.
Cristal mantinha uma das mãos próxima à parede. Erik descia um pouco atrás, espada baixa, atento a qualquer som que não viesse dos dois.
No fim da escadaria, a câmara apareceu.
Era menor do que a nave superior, quase redonda, com o teto baixo o bastante para dar sensação de aperto. No centro, havia uma mesa de pedra simples. Sobre ela repousava um objeto circular, metálico, rachado em uma das bordas. Não era espelho comum, nem lente comum. Parecia as duas coisas ao mesmo tempo, quebradas no meio do caminho.
Ao redor da mesa, mais inscrições em espiral, dessa vez apagadas.
Cristal se aproximou devagar.
— Isso não parece um altar — disse Erik.
— Não.
— Parece um selo.
Ela concordou com um movimento curto de cabeça.
O objeto tinha marcas finas na borda, quase como se dedos antigos tivessem passado ali muitas vezes. Cristal estendeu a mão.
Erik percebeu no mesmo instante.
— Espera.
Mas ela já havia tocado.
O choque não a lançou para trás.
Foi pior: entrou por dentro.
A escuridão veio de uma vez, curta e absoluta, seguida por uma sensação de pressão dentro da cabeça. O corpo continuava ali, mas por um instante tudo ficou longe demais — a câmara, a mesa, Erik, o ar. E uma voz atravessou esse vazio sem usar som.
“O Véu não é um muro... é uma porta.
E a chave já foi tocada.”
Cristal puxou a mão de volta e cambaleou um passo. A respiração saiu falhada.
Erik segurou o braço dela.
— Cristal.
Ela piscou uma vez, duas, tentando firmar a visão.
— Estou bem.
— Você não está com cara de quem está bem.
— Já tive piores.
— Isso não ajuda.
Cristal respirou mais uma vez e ergueu os olhos para o objeto.
A superfície metálica refletia os dois. Mas o reflexo estava errado.
As formas de Cristal e Erik apareciam distorcidas, alongadas pela rachadura. E atrás delas havia outra figura — sem rosto, coberta de sombra, com dois pontos intensos onde deveriam estar os olhos. Não eram olhos humanos. Eram fendas acesas, como brasa no fundo de pedra quebrada.
Cristal recuou um passo.
— Erik.
Ele já estava vendo.
A espada subiu na mesma hora.
A figura não se moveu.
Também não precisava.
A presença dela bastava para fazer a temperatura da câmara cair ainda mais.
Então o reflexo vacilou.
Num segundo estava ali. No outro, nada além da imagem quebrada dos dois.
Erik não baixou a espada, mas também não avançou de forma cega. Deu apenas meio passo à frente, o suficiente para ficar entre Cristal e a mesa.
— Ninguém toca nisso de novo.
Cristal ainda tentava firmar a respiração.
— Erik...
— Se isso reagiu a você desse jeito, a gente não mexe mais até entender o que é.
Ela apoiou uma das mãos na borda da mesa para recuperar equilíbrio.
— Eu também acho que não dá para arrancar isso daí.
Ele virou o rosto para ela, sem tirar totalmente a atenção do objeto.
— “Não dá” ou “você acha”?
Cristal fechou os olhos por um segundo, organizando a sensação que ainda latejava na cabeça.
— Não sei explicar direito. Mas parece errado tirar.
— Por quê?
— Porque isso não está guardado aqui por acaso.
Erik esperou.
Cristal olhou para as inscrições apagadas ao redor da mesa.
— Se isso for parte de um selo, tirar agora pode ser exatamente o que alguém quer.
Ele considerou aquilo em silêncio.
— Então a gente parte do pior cenário.
— Qual?
— O de que isso prende alguma coisa. Ou mantém alguma passagem fechada.
Cristal assentiu devagar.
— Foi isso que eu senti.
Erik baixou um pouco a ponta da espada, mas não a guardou.
— Então não se move.
Ela puxou um pano do cinto.
— Vou cobrir.
Ele imediatamente estendeu o braço livre, impedindo.
— Devagar.
Cristal olhou para ele.
— Você está me dando ordens agora?
— Estou impedindo você de tocar uma segunda vez alguma coisa que acabou de atravessar sua cabeça por dentro.
Ela soltou o ar, cansada demais para discutir de verdade.
— Certo.
Com cuidado, ela abriu o pano e o deixou cair sobre o objeto sem encostar mais na superfície metálica. Assim que o tecido cobriu a peça rachada, as inscrições apagadas ao redor da mesa acenderam por um segundo e depois perderam o brilho outra vez.
Como se dormissem.
Os dois ficaram imóveis.
Erik foi o primeiro a falar.
— Isso eu aceito como um bom sinal provisório.
Cristal quase sorriu, apesar do mal-estar.
— Provisório?
— Com coisas assim, tudo é provisório.
Ela ainda respirava com dificuldade, mas a visão já começava a se firmar.
Erik enfim guardou a espada, sem tirar os olhos da mesa.
— O que a voz disse?
Cristal olhou para o pano estendido sobre o objeto.
— Que o Véu não é um muro.
— Ótimo. Mais uma frase ruim para pensar à noite.
— E que a chave já foi tocada.
Dessa vez, Erik não respondeu de imediato.
— Por quem?
Cristal ergueu os ombros, abatida.
— Se eu soubesse, esse passeio teria sido bem mais útil.
Eles voltaram pela escadaria sem pressa, mas sem hesitar. A sensação de estar sendo observados continuava ali, agora não apenas na câmara inferior, mas no próprio templo inteiro. Cada degrau parecia mais longo na subida.
Quando emergiram de volta à nave central, a luz havia mudado.
Não fazia sentido. Tinham passado pouco tempo lá embaixo. Ainda assim, o interior do templo estava mais escuro, como se a tarde tivesse avançado horas sem pedir licença. O vento entrava com mais força pelas aberturas do teto, e os cavalos, do lado de fora, relinchavam inquietos.
Cristal foi a primeira a atravessar a entrada.
O ar exterior estava frio demais para aquele horário.
Erik soltou as rédeas do cavalo e passou a mão no pescoço do animal, tentando acalmá-lo.
— Eles querem sair daqui.
— Eu também.
Cristal montou e só então olhou para o horizonte.
Lá longe, três pássaros negros voavam em círculos sobre a linha das colinas. Não pareciam procurar caça. Pareciam marcar lugar.
Ela sentiu um peso breve no estômago.
Erik também viu.
— Não gosto disso.
— Nem eu.
Ele montou em seguida.
— Vamos para onde?
Cristal segurou melhor as rédeas.
— Precisamos falar com Jean.
— Direto?
— Direto.
— E com Problemática.
— Também.
Erik ainda olhou uma vez para trás antes de virar o cavalo. O templo permanecia ali, inteiro, escuro, imóvel. Não parecia ameaçador no modo comum. Parecia paciente.
Quando os dois começaram a descer a trilha de volta, a névoa já voltava a subir entre as pedras e a vegetação. Primeiro cobriu a base da construção. Depois as colunas laterais. Em seguida o arco principal.
Cristal olhou por cima do ombro uma última vez.
O templo estava desaparecendo de novo.
Não como ruína que desaba. Como coisa que escolhe não permanecer visível o tempo inteiro.
Erik percebeu o olhar dela.
— Está se fechando.
— Ou nos mandando embora.
— Pouca diferença.
Cristal não respondeu.
Cavalgaram em silêncio por um tempo, mas agora era um silêncio gasto, cheio demais de pensamento. O barro da trilha grudava nas botas. Os cavalos continuavam inquietos. A luz do dia seguia estranha, pálida demais, como se o céu ainda não tivesse decidido em que hora queria ficar.
Depois de um trecho longo, Erik falou:
— Você não devia ter tocado aquilo sem pensar.
Cristal virou o rosto para ele, quase ofendida.
— Eu pensei.
— Pensou rápido.
— Você prefere que eu espere mais uma profecia inteira acender antes de encostar?
— Prefiro que você continue viva.
Ela respirou fundo.
— Eu continuei.
— Desta vez.
A resposta a irritou mais do que deveria.
— Você não precisa agir como se eu estivesse tentando morrer em toda ruína antiga que aparece.
— Eu não ajo assim.
— Age, sim.
— Eu ajo como alguém que está cansado de ver você chegar perto demais de coisas que ninguém entende.
Cristal ficou alguns segundos sem responder.
— Eu também estou cansada.
Isso abaixou o tom dos dois na mesma hora.
Erik olhou para a frente outra vez.
— Eu sei.
Cristal segurou as rédeas com mais firmeza, olhando o caminho.
— O problema é esse. Todo mundo espera que eu entenda. Que eu saiba ler sinal, símbolo, profecia, ruína, tudo. Como se a flecha tivesse colocado resposta dentro de mim.
— E não colocou?
Ela soltou um riso sem humor.
— Se colocou, esqueceu de me avisar.
Erik não respondeu na mesma hora.
— Então a gente descobre devagar.
Cristal olhou para ele de lado.
— Isso foi sua tentativa de consolar?
— Foi.
— Foi ruim.
— Eu sei.
Dessa vez ela sorriu de verdade, ainda que pouco.
A trilha começou a descer para a parte mais aberta do caminho, e o vento trouxe de novo cheiro de terra úmida e relva esmagada. As árvores já não pareciam tão próximas quanto antes. O templo havia desaparecido completamente atrás da névoa.
Mas a sensação do lugar não tinha ficado para trás.
Cristal ainda conseguia ouvir, dentro de si, a frase da câmara subterrânea. Não como lembrança exata, mas como um peso persistente.
O Véu não é um muro. É uma porta.
E a chave já foi tocada.
Ela não gostou daquilo. Não só pelo sentido. Pelo tom. Pela impressão de que alguma coisa havia falado com ela sem pressa, como se já a esperasse muito antes de sua chegada ao templo.
Erik percebeu que ela estava longe de novo.
— Está pensando na voz.
— Sim.
— Acha que falava com você?
Cristal demorou.
— Acho que falava para mim.
— Não é a mesma coisa.
— Eu sei.
Mais adiante, as torres de Sagittaria começaram a surgir entre o cinza do dia. Pequenas no começo. Depois mais nítidas.
Cristal ajustou o corpo na sela.
— Quando voltarmos, eu quero os registros de Orien. Todos os que ainda existirem.
— E se não existirem?
— Então a gente procura o que sobrou em outro lugar.
— Jean primeiro.
— Jean primeiro.
Erik assentiu.
— E você vai descansar antes de entrar em outra ruína.
Cristal olhou para ele com cansaço genuíno.
— Você realmente escolheu essa parte da conversa para insistir?
— Escolhi.
— Às vezes eu acho que você gosta mais de vigiar do que de viver.
— Às vezes eu acho que, se eu não vigiar, você me dá razão depressa demais.
Ela não respondeu.
Porque aquela, infelizmente, era uma discussão difícil de vencer.
Seguiram até que a trilha encontrasse o caminho principal para o castelo.
Atrás deles, escondido outra vez entre névoa, pedra e tempo, o Templo de Orien continuava onde sempre estivera.
Não vazio.
Não morto.
Esperando.