Livro I – A Flecha e o Véu — Capítulo 3

Erik e o Sonho do Norte

Após o retorno do Templo de Orien, Erik passa a ser assombrado por sonhos ligados ao norte, a uma torre antiga e a um nome esquecido. Quando decide seguir sozinho os sinais, descobre que seu passado pode estar conectado a um selo antigo, ao símbolo de Sagitário e às primeiras rachaduras do Véu.

Nos dias que se seguiram ao retorno do Templo de Orien, Cristal passou a buscar respostas em registros antigos, corredores esquecidos e conversas que quase ninguém queria ter.

Erik não a acompanhou em todas.

Não por falta de interesse.

Por falta de descanso.

O problema não estava nas rondas, nem nas demandas do castelo, nem no peso normal de quem já havia aceitado ocupar espaço demais na vida do reino.

O problema começava quando ele fechava os olhos.

Os sonhos voltaram com força.

Não eram como lembranças comuns. Não vinham quebrados ou incertos. Vinham inteiros demais. Nítidos demais. E sempre com o mesmo frio.

Na terceira noite seguida, Erik acordou antes do amanhecer com o corpo tenso e a respiração curta, como se tivesse acabado de escapar de um golpe que ainda não entendia.

O abrigo dos patrulheiros dourados estava escuro, quase sem movimento. Um dos homens roncava baixo no canto oposto. Outro havia deixado a manopla caída ao lado da cama improvisada. Tudo ali era real, simples e conhecido.

Mas o gelo do sonho continuava preso nele.

Erik passou a mão pelo rosto, sentiu o suor frio na testa e ficou sentado por alguns instantes, olhando a lona acima de si como se esperasse que ela cedesse e mostrasse o céu vermelho de novo.

A mesma paisagem.

A mesma torre.

A mesma criança.

Ele se levantou devagar para não acordar ninguém, calçou as botas e saiu.

Do lado de fora, a madrugada ainda estava inteira. A lua pairava acima das montanhas distantes, branca demais, imóvel demais. A planície em torno do acampamento era só neblina baixa, relva úmida e o desenho escuro das cercas improvisadas.

Nada ali lembrava o sonho.

Ainda assim, ele o carregava como se tivesse voltado de lá há poucos minutos.

Erik caminhou até a encosta mais próxima e parou.

O ar estava frio, mas não era aquele frio. O do sonho vinha de outro lugar. Não passava pela pele. Subia por dentro.

No sonho, ele andava sobre um campo coberto de gelo negro. O céu tinha um tom vermelho sujo, como se algo acima estivesse queimando por trás das nuvens. Cada passo afundava numa superfície quebradiça, e o som sob as botas não parecia gelo: parecia vidro fino sendo esmagado.

Ao longe, uma torre antiga se erguia torta, cercada de ruínas baixas e pedra rachada.

Era sempre a mesma.

Ele atravessava o campo sabendo que precisava entrar. Nunca sabia por quê.

Só sabia.

Lá dentro, uma criança chorava sob uma escada quebrada.

Quando Erik se aproximava, ela erguia o rosto.

Os olhos eram os mesmos dele.

E então a torre caía.

Sempre nesse ponto.

Sempre na mesma hora.

Naquela noite, porém, o sonho trouxera algo a mais.

Uma voz.

Rouca. Feminina. Baixa demais para ser grito, firme demais para ser eco.

Não o chamava de Erik.

Chamava-o de Erion.

O nome ainda estava preso na cabeça dele quando ouviu passos atrás.

Cristal vinha em sua direção com o manto jogado sobre os ombros, ainda com o cabelo preso de qualquer jeito, como alguém que saíra rápido demais para se preocupar em parecer pronta para o dia.

Havia cansaço no rosto dela também. Os dois já sabiam reconhecer isso um no outro antes mesmo da primeira palavra.

Ela parou ao lado dele, olhando a mesma linha escura das montanhas.

— De novo?

Erik assentiu.

Cristal cruzou os braços por causa do frio.

— O mesmo sonho?

— Quase.

— O que mudou?

Ele demorou um pouco.

— Um nome.

Ela virou o rosto para ele.

— Qual?

Erik passou o polegar pela corrente presa ao pescoço, por baixo da túnica.

— Erion.

Cristal não respondeu de imediato.

— Você já tinha ouvido isso antes?

— Uma vez.

— Onde?

— Quando eu era novo. — Ele olhou para a planície, não para ela. — Um velho disse esse nome perto de mim. Achou que eu estava dormindo.

Cristal ficou em silêncio por alguns segundos, pensando.

— E você nunca falou disso.

— Não havia muito o que falar.

— Para você, talvez.

Erik soltou o ar pelo nariz.

— Um nome antigo aparecendo num sonho não me pareceu material de conversa agradável.

— Aqui, nada mais entra nessa categoria faz tempo.

Isso quase o fez sorrir.

Cristal apoiou os cotovelos na cerca baixa de madeira e olhou para a neblina.

— Você quer me contar o resto?

— Torre. Gelo. A criança. Como sempre.

— A criança era você.

Ele não perguntou como ela sabia.

— Era.

— E a voz?

— Veio antes da torre cair.

Cristal assentiu devagar.

— Jean diria que isso não é só sonho.

— Eu sei o que Jean diria.

— E Problemática diria que você demorou demais para falar.

— Também sei.

— E eu vou dizer que isso não é coincidência.

Erik olhou para ela de lado.

— Essa era a parte reconfortante?

— Não. A reconfortante é que você ainda está aqui.

Ele não respondeu.

Ficaram um tempo em silêncio, mas não no tipo pesado do lago ou do templo. Era um silêncio de quem já dividira medo suficiente para não precisar enfeitá-lo.

Cristal falou primeiro.

— Quando saímos de Orien, você ficou diferente.

— Você também.

— Eu toquei uma relíquia que falou comigo.

— E eu vi.

Ela aceitou o golpe com um pequeno aceno.

— Certo. Mas desde então você está longe até quando está perto.

Erik puxou da gola a corrente dourada e deixou o medalhão cair sobre a palma da mão. A peça era antiga, gasta nas bordas, com o símbolo de uma estrela de seis pontas envolta por uma serpente congelada. O metal não era comum. Nem a sensação que ele sempre dava.

— Ele esquentou em Orien.

Cristal olhou o medalhão com mais atenção.

— Você não me contou isso.

— Não.

— Por quê?

— Porque você já tinha informação demais para carregar naquele dia.

Ela soltou um ar curto, entre irritação e resignação.

— Às vezes eu odeio quando você decide sozinho o que é demais para mim.

— Às vezes eu sei.

Cristal tocou de leve a borda da peça com a ponta dos dedos.

— Você acha que esse lugar do sonho é real.

Não foi pergunta.

Erik guardou o medalhão de novo.

— Acho.

— E fica ao norte.

— Acho.

— E você vai.

Desta vez ele virou o rosto para ela por inteiro.

— Sim.

Cristal fechou os olhos por um segundo, como se já previsse aquela resposta antes de ouvi-la.

— Sozinho?

— Melhor.

— Não para mim.

— Não é para você.

Ela o encarou com firmeza.

— Isso é exatamente o tipo de frase que um homem fala antes de ir sozinho até uma ruína e quase morrer nela.

— Isso aconteceu com você há quatro dias.

— E você ainda usa como argumento contra mim. Ótimo.

Erik finalmente deixou escapar um meio sorriso.

Cristal viu e balançou a cabeça.

— Não gosto disso.

— Eu sei.

— E não vou te impedir.

— Eu sei disso também.

Ela se endireitou.

— Então me promete duas coisas.

— Depende.

— Não inventa ironia agora.

— Fala.

— Se encontrar algo que não entenda, você não toca.

Erik ficou quieto por um momento.

— Essa foi cruel.

— Foi merecida.

Ele assentiu.

— E a segunda?

— Se o lugar for real, e se houver qualquer chance de isso se ligar ao que vimos em Orien, você volta. Sem insistir mais do que deve.

Erik pensou antes de responder. Cristal percebeu. Ela sempre percebia quando a resposta verdadeira vinha antes da aceitável.

— Eu volto se ainda for possível voltar com alguma coisa útil.

— Erik.

— Eu estou sendo honesto.

Cristal apertou os lábios, mas não insistiu além do ponto.

— Isso já é mais do que o normal vindo de você.

Naquela mesma manhã, quando a primeira luz começou a limpar a névoa da planície, Erik montou sozinho e tomou o caminho do norte.

Não avisou ao conselho. Não convocou escolta. Deixou ordens simples para os patrulheiros e partiu antes que o castelo acordasse por completo.

A estrada mudou aos poucos.

Primeiro deixaram de existir as terras de plantio próximas a Sagittaria. Depois vieram campos pedregosos, menos árvores, mais vento. O verde se apagou em cinza. O cinza endureceu em pedra pálida. E, conforme avançava, o frio deixava de parecer clima e começava a parecer território.

No segundo dia, ele já não tinha dúvida de que o sonho o guiava mais do que qualquer mapa.

As formações rochosas coincidiam demais. As depressões do terreno, os restos de muros baixos, a linha das colinas ao longe — tudo vinha com a estranha familiaridade de algo lembrado tarde demais.

Erik dormiu pouco.

Quando fechava os olhos, o nome voltava.

Erion.

No amanhecer do terceiro dia, ele chegou.

O vale estava coberto de gelo antigo, não branco, mas escurecido pelo tempo e pela pedra sob ele. Ruínas baixas se espalhavam pelo terreno como restos de um assentamento antigo, e no centro erguia-se a torre.

Ou o que sobrara dela.

Erik desmontou e ficou parado por alguns instantes, com as rédeas na mão.

Era real.

Mais baixa do que no sonho. Mais quebrada. Mais aberta ao céu.

Mas real.

Ele deixou o cavalo preso a uma rocha firme e avançou a pé.

O chão estalava sob as botas. O ar cheirava a pedra seca, metal frio e uma coisa antiga demais para ter nome fácil. As paredes externas da torre estavam rachadas do alto até a base, e blocos enormes tinham rolado para fora há muito tempo.

Ainda assim, havia algo de inteiro ali.

Não na estrutura.

Na presença.

Erik passou a mão por uma das pedras da entrada.

O mundo girou sem aviso.

Por um instante, ele não era mais homem feito.

Era menino.

Corria pela neve, sem fôlego, com o peito queimando de medo. Havia fogo azul nas construções ao redor. Gritos. Clarões. Um sino partido ao longe. Ele subia os degraus da torre tropeçando, chorando sem som, com alguma coisa apertada contra o peito.

E então a voz vinha de novo, mais perto desta vez.

— Erion... o sangue do norte ainda respira.

A imagem seguinte doeu mais do que a primeira.

— O Véu será rompido primeiro por aquele que fugiu.

Erik abriu os olhos de volta no presente e caiu de joelhos sobre o gelo escuro, o ar preso na garganta. A mão ainda estava na pedra. Ele a puxou de volta como se tivesse tocado ferro em brasa.

Ficou assim por alguns segundos, inclinando o corpo para frente até a respiração voltar.

Quando conseguiu se levantar, notou o que antes não tinha visto.

Na lateral interna da torre, quase coberto por gelo e sombra, havia um símbolo.

O de Sagitário.

Não desenhado como bênção.

Nem como brasão.

Desenhado como selo.

Erik se aproximou mais.

Linhas finas fechavam o emblema em torno de um círculo gasto, como se o símbolo não estivesse ali para marcar pertença, e sim para manter alguma coisa contida.

Ele passou os olhos pelas bordas da pedra, procurando outra pista.

Encontrou uma inscrição logo abaixo, mais recente do que o restante das ruínas. A frase parecia ter sido riscada ali depois da queda, não antes. Como se alguém tivesse voltado muito tempo depois só para deixar aquilo.

Erik leu devagar:

“A justiça começa onde o Véu termina.”

O vento atravessou a abertura da torre e fez o frio apertar de novo. Mas agora ele entendia o suficiente para não se iludir.

Aquilo não era só ruína de infância.

Era um ponto selado.

Um lugar que alguém tentou fechar usando Sagitário como marca de contenção.

E se o símbolo da linhagem de Cristal estava ali como selo, então o problema não dizia respeito apenas ao passado dele. Tocava diretamente o que os dois tinham despertado no presente.

Erik ficou olhando a inscrição por um longo tempo, sem mover as mãos.

Depois tirou o medalhão do peito e o segurou diante do símbolo na parede.

O metal aqueceu de novo.

Pouco.

Mas aqueceu.

Isso bastou.

Erik fechou os dedos em torno da peça e olhou para a abertura superior da torre, onde o céu aparecia em pedaços cinzentos por entre as rachaduras.

— Então era real — murmurou.

Não houve resposta.

Ou melhor: não uma resposta em forma de voz.

Ao longe, por trás das ruínas menores, uma camada de névoa começou a se mover rente ao chão. Não como vento comum. Como se alguma coisa tivesse decidido mudar de posição.

Erik percebeu na mesma hora.

Guardou o medalhão, levou a mão à espada e recuou um passo, sem pressa.

Não por medo do combate.

Por entendimento.

Não estava ali para lutar até o fim.

Não daquela vez.

Estava ali para confirmar.

E já tinha confirmado o bastante.

Quando voltou ao cavalo, o animal estava agitado, puxando a rédea curta com força crescente. Erik montou rápido e não olhou para trás de imediato. Só quando já alcançava a borda do vale voltou o rosto uma vez.

A torre permanecia onde sempre estivera.

Mas a névoa ao redor subia pelas ruínas com lentidão paciente, como se reconhecesse que ele havia retornado.

Erik apertou os joelhos na sela e puxou as rédeas para o sul.

Durante o caminho de volta, não tentou organizar tudo de uma vez.

Sabia o bastante para uma conclusão simples:

o norte não o chamava só por memória.

Chamava por participação.

Se aquela voz dizia a verdade, a fuga de sua infância não o havia tirado da história. Apenas o havia empurrado para o ponto em que, mais tarde, ele teria de voltar a ela.

E se o Véu se romperia primeiro por aquele que fugiu, então o passado dele não era só ferida.

Era aviso.

No fim do dia, quando as torres de Sagittaria voltaram a aparecer ao longe, Erik já tinha decidido duas coisas.

A primeira: contaria tudo a Cristal.

A segunda: não deixaria que ela enfrentasse sozinha o que quer que estivesse preso entre o selo de Sagitário, o templo de Orien e o nome que ele quase esquecera.

A noite caiu antes que chegasse aos portões.

Mas Erik continuou cavalgando.

O frio do norte ainda estava nele.

E, pela primeira vez desde o início dos sonhos, isso já não parecia apenas ameaça.

Parecia começo.