O símbolo de Sagitário já aparecia em estandartes, vitrais, moedas e pequenas esculturas espalhadas pelo castelo. Onde antes havia dúvida, agora havia expectativa. Onde antes havia rumor, agora havia fé.
No andar de cima, isso era visível.
No de baixo, não.
Enquanto boa parte do reino começava a se acostumar com a ideia de que a luz tinha escolhido um caminho, Problemática seguia olhando para o que a luz não alcançava de primeira.
Não fazia isso por oposição.
Fazia porque alguém precisava.
Naquela noite, o Castelo Dourado parecia respirar menos. Os corredores estavam quietos de um jeito ruim — não o silêncio comum da madrugada, mas aquele tipo de quietude em que qualquer passo parece deslocado, como se o lugar inteiro estivesse esperando alguém errar primeiro.
Problemática caminhava sem pressa, a mão esquerda presa às costas, a direita livre ao lado do corpo. O manto escuro roçava de leve nas pedras do corredor. Os cabelos longos, soltos, caíam sobre os ombros sem capuz ou cobertura.
Ela não escondia o rosto.
Nunca precisou.
Chegou ao salão menor do conselho e empurrou a porta.
O aposento estava quase escuro. Só uma tocha acesa na parede oeste lançava luz suficiente para marcar a mesa, duas cadeiras e parte das tapeçarias antigas. O restante parecia recuado, como se não quisesse participar da conversa.
Ela entrou sem anunciar.
Alguns segundos depois, uma sombra se moveu junto à parede do fundo.
O Conselheiro Vetarn.
Magro, mantos escuros, postura ereta demais para a hora, expressão que sempre parecia pairar entre o cansaço e o julgamento.
— A senhora costuma entrar como se já fosse esperada — disse ele.
Problemática fechou a porta atrás de si.
— E o senhor costuma ficar parado no escuro como se isso o tornasse mais difícil de ler.
Vetarn inclinou de leve a cabeça, sem sorriso.
— Hoje estamos menos pacientes do que o normal.
— Hoje o castelo está menos honesto do que o normal.
Ela se aproximou da mesa e colocou um pergaminho selado sobre a madeira.
Vetarn não tocou nele de imediato.
— O que é isso?
— Um símbolo encontrado por Cristal e Erik. Templo antigo. Runas reativadas. E alguma coisa lá dentro que não ficou satisfeita em continuar esquecida.
Vetarn abriu o selo com cuidado. Leu em silêncio. A chama da tocha estalou duas vezes no intervalo.
Quando terminou, ergueu os olhos.
— Símbolos do Véu, então.
— Não como lembrança. Como atividade.
— Já houve outros alarmes falsos.
— Isso não foi um.
Vetarn voltou a ler um trecho mais curto, como quem testa a própria confiança naquilo que vê.
— O senhor já tinha ouvido falar em Orien? — ela perguntou.
— Como ruína, sim. Como ameaça, não.
— Talvez esse tenha sido o erro de muita gente.
Ele pousou o pergaminho sobre a mesa.
— E o que exatamente a senhora acredita que isso signifique?
Problemática não respondeu na mesma hora. Ela olhou para a tocha, depois para a janela fechada, depois para o reflexo fraco do metal na fivela do próprio cinto.
— Significa que o castelo não está tão protegido quanto parece. E que há alguma coisa se movendo mais perto do que devia.
Vetarn cruzou as mãos nas costas.
— Perto de onde?
— Daqui.
O conselheiro a observou em silêncio por alguns segundos.
— Está dizendo que alguém dentro do castelo pode estar envolvido?
— Estou dizendo que o Véu não se mexe sozinho. E se começou a ceder em templos antigos e ruínas esquecidas, pode haver alguém puxando a linha do lado de cá.
Vetarn apoiou dois dedos no tampo da mesa.
— Isso é acusação grave.
— Não. Ainda é suspeita útil.
— E o que quer de mim?
Problemática respondeu sem rodeio:
— Quero saber se o senhor já viu algum símbolo semelhante circular entre os arquivos internos, conselhos paralelos ou ordens que não passam pelo registro principal.
Vetarn não gostou da pergunta. Isso apareceu mais nos olhos do que no rosto.
— A senhora tem o hábito irritante de perguntar como se a resposta já estivesse em algum lugar da sala.
— Normalmente está.
Ele soltou o ar devagar.
— Não vi esse símbolo nos registros comuns. Mas houve relatórios incompletos vindos do subsolo norte. Desapareceram antes de serem catalogados.
— Desapareceram?
— Sumiram do protocolo. Ninguém admitiu ter movido.
Problemática absorveu a informação sem mudar a postura.
— Quando?
— Há cinco noites.
— Antes de Orien.
— Sim.
Ela assentiu uma única vez.
— Então começou antes do que parece.
Vetarn fechou o pergaminho e o empurrou de volta para ela.
— Se está correta, o problema não é só externo.
Problemática guardou o papel no cinto.
— Eu nunca achei que fosse.
Saiu do salão sem despedida formal.
Não havia motivo para isso.
Nos andares inferiores do castelo, o ar era mais frio. Não por corrente de vento, mas porque a pedra parecia não reter calor nenhum ali. As passagens estreitas serviam a depósitos antigos, rotas de servidão esquecidas e câmaras que só gente curiosa demais ou insistente demais ainda visitava.
Problemática era das duas espécies, quando necessário.
Atrás de uma sequência de tapeçarias desbotadas, ela puxou a borda de um tecido gasto e revelou a escada de pedra que descia até os Arquivos Velados. A passagem não era secreta no sentido puro da palavra.
Só era evitada o bastante para parecer.
Ela desceu.
Os Arquivos Velados guardavam tratados, crônicas e registros de um tempo em que o reino ainda tentava nomear o Véu como se fosse possível dominá-lo pelo vocabulário. O cheiro ali era o de papel antigo, couro ressecado, pó e umidade presa entre as paredes. A maioria das pessoas suportava poucos minutos antes de sentir dor de cabeça.
Problemática acendeu uma pequena esfera de luz sobre o ombro e começou a andar entre as prateleiras.
Os dedos passaram por lombadas rachadas, títulos apagados, caixas de registro lacradas, coleções de cópias e versões parciais de livros que ninguém mais queria deixar no andar de cima.
Ela foi direto à seção que procurava.
Tratados do Véu Interior.
Retirou o volume da prateleira e o levou até a mesa de leitura, uma laje estreita encostada sob o arco de pedra ao fundo do arquivo.
Abriu o livro.
As primeiras páginas eram quase ilegíveis de tão marcadas pelo tempo, mas o trecho que queria ainda sobrevivia.
“O Véu divide o que é permitido lembrar do que não deve ser recordado. Quando suas dobras se agitam, é sinal de que algo esquecido quer voltar.”
Problemática leu a frase duas vezes.
Não por dificuldade.
Por irritação.
Ela odiava quando os antigos acertavam algo sem dar instruções suficientes sobre o que fazer em seguida.
Passou a página.
Mais linhas sobre marcas em espelho, dobras de memória, infiltração por símbolos, ruído em superfícies refletivas, deslocamento entre presença e registro.
Nenhuma certeza total.
Muitos avisos.
Quase nenhum método.
Foi então que ouviu o som.
Muito leve.
Passo em pedra, interrompido cedo demais.
Ela fechou o livro sem estardalhaço e ergueu os olhos.
Havia alguém na entrada do arquivo.
Jean.
Encostado de lado na parede, braços cruzados, capuz para trás, máscara azul-escura cobrindo parte do rosto. As roupas traziam marcas de viagem, mas ele parecia mais limpo do que da última vez.
Não menos cansado.
Só mais acostumado.
Problemática não demonstrou surpresa.
— Você tem um talento insuportável para aparecer em lugares onde ninguém pediu.
Jean se afastou da parede e entrou dois passos.
— E você tem um talento parecido para procurar as respostas nos lugares que o castelo preferiria esquecer.
— Um dos dois precisa compensar a preguiça institucional.
Isso arrancou dele algo próximo de um sorriso, embora curto demais para durar.
Jean olhou para o livro fechado.
— Achou alguma coisa útil?
— Achei frases antigas me dizendo que o problema existe. O que, francamente, já era óbvio.
Ele veio até a borda oposta da mesa.
— Então estou no lugar certo.
— Isso depende do que você trouxe.
Jean passou os olhos pelas estantes, como se quisesse ter certeza de que o próprio arquivo não estava ouvindo melhor do que devia.
— Algo está se formando dentro do castelo.
Problemática não se moveu.
— Dentro de onde, exatamente?
— Ainda não sei.
— Isso não me serve.
— Vai ter que servir por enquanto.
Ela apoiou as mãos na pedra da mesa.
— Seja mais claro.
Jean sustentou o olhar dela.
— Não estou falando de um inimigo atravessando muralha com espada. Estou falando de uma presença crescendo onde não deveria haver espaço para ela. Nos corredores. Nos conselhos. Nas coisas que desaparecem de lugar sem ter sido levadas. No tipo de silêncio que o castelo não tinha antes.
Problemática estudou o rosto parcial dele por alguns segundos.
— E você voltou só para me dizer isso?
— Não.
— Então diga o resto.
Jean inclinou a cabeça de leve.
— Você vai ver primeiro.
Ela não gostou da resposta.
Não porque fosse vaga.
Porque soava possível.
— Baseado em quê?
— No que você é.
— Não gosto quando você fala como se soubesse isso melhor do que eu.
— Também não gosto. Mas continuo certo.
O arquivo ficou quieto por alguns instantes. A esfera de luz sobre o ombro de Problemática oscilou levemente, projetando sombras mais longas entre as estantes.
Jean continuou:
— Há gente no castelo que ainda pensa no Véu como ameaça distante. Como coisa de ruína, floresta, templo ou fronteira. Você não. Você percebe quando a distorção começa antes de ganhar nome. Por isso vai ver primeiro.
Problemática fechou os dedos sobre a borda do livro.
— Isso não é elogio.
— Nunca foi.
Ela ficou em silêncio.
Depois puxou de dentro do manto um pequeno pedaço de pergaminho dobrado.
Colocou-o sobre a mesa.
— Então olha isso.
Jean abriu.
No centro do papel havia um símbolo queimado, escuro nas bordas, reconhecível demais.
O mesmo do Véu.
Ele ergueu os olhos.
— Onde conseguiu?
— Debaixo da minha porta.
— Quando?
— Hoje.
Jean analisou o pergaminho com mais atenção. Havia queimadura real nas bordas, não tinta tentando imitá-la. O papel também tinha uma dobra antiga, como se tivesse sido guardado antes de ser entregue.
— Nenhuma pegada? — ele perguntou.
— Nenhuma.
— Sinal de feitiço?
— Nenhum que eu tenha visto.
Jean pousou o pergaminho de novo.
— Então já começou.
Problemática desviou o olhar por um instante, como se aquela frase abrisse um compartimento que ela mantinha trancado havia anos.
Jean percebeu.
— O que foi?
Ela soltou o ar devagar, sem gostar de ter de voltar àquilo.
— Quando eu ainda era aprendiz, uma mulher entrou no meu quarto numa noite de inverno.
Jean não interrompeu.
— Ela usava um véu prateado. Não chegou pela porta. Não fez barulho. Só estava lá. Eu achei que estava sonhando.
— E não estava.
— Não.
Problemática olhou para o símbolo queimado.
— Ela me disse três coisas. Primeiro, que eu nunca deveria confiar inteiramente em nenhum conselho. Depois, que meu dom não era só de leitura ou percepção. Estava ligado ao tempo. Ao modo como certas coisas chegam antes e outras permanecem tarde demais.
Jean escutava imóvel.
— E a terceira? — perguntou.
A voz dela saiu mais baixa, não por medo, mas pela memória exata do tom em que ouvira aquilo anos antes.
— Que um dia eu veria um símbolo arder dentro do castelo. E, quando isso acontecesse, teria de escolher entre a verdade... e o trono.
O arquivo pareceu menor depois disso.
Jean levou alguns segundos até responder.
— Você nunca contou isso a ninguém.
— Não.
— Nem a Cristal?
— Nem a ela.
— Por quê?
Problemática ergueu o queixo, irritada com a pergunta antes mesmo de respondê-la.
— Porque profecia demais apodrece decisão. E porque eu ainda não sabia se era aviso, truque ou delírio de juventude.
Jean assentiu.
— Agora sabe.
Ela não gostou do modo como aquilo soou definitivo.
— Agora sei que alguém quer que eu pense nisso. Não é exatamente a mesma coisa.
Jean guardou um breve silêncio.
— Você sempre faz isso.
— O quê?
— Deixa a frase certa um passo antes da aceitação completa.
Ela cruzou os braços.
— É um método excelente para continuar viva.
Pela primeira vez desde que chegara, Jean pareceu cansado de verdade.
— Então continue viva por mais um pouco. Vai precisar.
Problemática fechou o livro de vez e o recolocou no lugar de onde o tirara. O gesto foi calmo, quase meticuloso, mas a mente já corria mais rápido do que o corpo.
— Se alguma coisa está crescendo dentro do castelo, eu não vou esperar que chegue à superfície por conta própria.
Jean observou em silêncio.
Ela foi até uma estante lateral, afastou dois volumes grossos que não tinham função nenhuma ali e revelou uma pequena alavanca de ferro embutida na pedra.
— Você já sabia disso? — ele perguntou.
— Da passagem? Sim.
— Do que está embaixo?
— O suficiente para não gostar.
Problemática puxou a alavanca.
Um painel de pedra cedeu com um ruído baixo e revelou uma abertura estreita, descendo para uma passagem escura.
O ar que veio dali era seco, frio e antigo.
Jean olhou para a abertura. Depois para ela.
— Vai sozinha?
— Prefiro.
— Isso tem funcionado mal para todo mundo ultimamente.
— Ainda está funcionando para mim.
Ele não contestou.
Problemática parou diante da passagem e lançou um último olhar para o arquivo, para a mesa, para o livro recolocado, para o símbolo queimado ainda sobre a pedra.
A sensação que tinha não era medo.
Era reconhecimento.
Como se uma peça antiga, incômoda e mal resolvida tivesse finalmente decidido encaixar no lugar errado.
Jean falou uma última vez antes de ela entrar.
— Se encontrar alguma coisa viva aí embaixo, não tente entender sozinha até o fim.
Problemática apoiou a mão na lateral da abertura.
— Você fala isso como se eu tivesse esse tipo de mania.
Jean olhou diretamente para ela.
— Você tem.
Ela não respondeu.
Entrou.
A escuridão a recebeu sem surpresa, como se já a conhecesse.
O painel se fechou atrás dela, primeiro com peso, depois com silêncio.
E, nos subterrâneos do castelo — onde o ar não corria direito, a pedra guardava mais do que devia e as verdades velhas tinham sido enterradas para não incomodar o presente —, Problemática começou a descer.