Não era mais só o Véu que dava sinais.
Agora era o portão.
O oeste sempre parecera um pouco diferente do restante de Sagittaria. Mais exposto. Mais seco em certos dias, mais frio em outros, mesmo quando o clima do reino não acompanhava. Os soldados antigos diziam que o lado oeste escutava primeiro o que vinha de fora. Os mais jovens riam disso até passarem uma noite completa nas muralhas e perceberem que o lugar tinha, de fato, um jeito próprio de ficar quieto.
Naquela madrugada, a quietude acabou cedo.
O alarme soou antes do amanhecer: três toques curtos, um longo, todos metálicos, graves, antigos demais para serem confundidos com treinamento.
Quem conhecia o código sabia o que aquilo queria dizer.
Ameaça próxima.
Ameaça séria.
Cristal despertou no primeiro toque. Nem pensou. Já estava de pé antes do último eco morrer nos corredores. Não vestiu a armadura inteira; só as peças principais, o suficiente para sair com velocidade e ainda carregar o peso certo da função que o reino esperava dela.
Prendeu o arco nas costas, ajustou a braçadeira e abriu a porta do aposento já ouvindo passos vindos do outro lado do corredor.
Erik vinha ao encontro dela.
Não precisaram trocar mais de um olhar.
— Oeste? — ela perguntou.
— Oeste.
— Fogo?
— Pelo cheiro, sim.
— Natural?
Erik já sabia a resposta, mas mesmo assim disse:
— Duvido.
Desceram juntos pelo corredor estreito que levava ao pátio inferior. O castelo ainda estava meio escuro, com tochas apagando aos poucos e gente surgindo às pressas de portas e escadas, alguns ainda tentando entender o que ouviram, outros já vestidos para correr.
Lá fora, no pátio, o ar trazia um gosto amargo de fumaça.
Erik já tinha dois cavalos sendo preparados. Um soldado se aproximou e entregou a ele as rédeas com as mãos trêmulas.
— A patrulha do oeste mandou dizer que o fogo começou nas próprias pedras, senhor.
Cristal montou sem perder tempo.
— Nas pedras?
— Sim, senhora. E sobe contra o vento.
Ela trocou um olhar rápido com Erik.
Não precisavam discutir ali.
Partiram.
O trajeto até o Portão Oeste foi feito em galope duro, acompanhado por quatro soldados de elite e pelo ruído seco dos cascos quebrando o silêncio da manhã. O céu ainda não tinha clareado por completo, mas já era possível ver, acima das muralhas distantes, uma coluna escura se levantando num movimento torto, como se a fumaça estivesse sendo puxada para o alto por vontade própria.
Cristal sentiu a mudança no ar antes de chegarem perto o bastante para ver as chamas. O calor não vinha distribuído de modo natural. Havia bolsões. O frio da madrugada persistia no rosto, mas do lado esquerdo do caminho o ar estava seco e agressivo, como saída de fornalha mal fechada.
Erik também percebeu.
— Isso não está queimando. Está consumindo.
— Eu pensei o mesmo.
Quando alcançaram o pátio externo do Portão Oeste, a cena deixou de ser dúvida.
As chamas subiam pelas pedras como se tivessem nascido dentro delas. Não eram largas e soltas como fogo comum. Eram compactas, vivas, presas em linhas que subiam pelas rachaduras da muralha e se espalhavam em curvas rápidas, quase procurando passagem.
Soldados já tentavam conter o avanço com baldes, mantas encharcadas e areia, mas nada segurava mais do que alguns segundos. A água atingia o fogo e parecia evaporar cedo demais, como se nem tivesse tocado a superfície.
Cristal desmontou antes mesmo de o cavalo parar por completo.
Erik veio logo atrás.
No centro da movimentação, Edinho já gritava ordens com a voz rouca de quem estava ali desde o primeiro sinal. A armadura dele trazia fuligem no ombro e marcas de calor nas bordas do escudo.
Quando viu os dois se aproximando, não perdeu tempo com formalidade.
— Começou na base da muralha leste do portão e subiu como se soubesse onde andar. Já tentamos água, areia e cobertura. Nada segura.
Cristal observou as fissuras acesas na pedra.
— Há feridos?
— Dois queimados. Um sufocado pela fumaça. E metade da guarnição já está convencida de que a muralha vai rachar.
Erik andou até o limite seguro e ergueu a mão livre na direção do calor. A sensação veio forte e estranha, como se o fogo não estivesse tentando apenas queimar, mas puxar.
Ele recuou um pouco.
— Não é chama comum. Ela drena.
Edinho bateu o cabo da lança no chão, irritado.
— Eu percebi isso na hora em que vi a água sumir antes de cair.
Cristal passou os olhos por toda a extensão do portão. As linhas de fogo se contorciam como nervos sob a pedra. Quanto mais os soldados tentavam abafá-las, mais elas pareciam se reorganizar.
— Civis?
— Tirados da área — respondeu Edinho. — Mas se isso atravessar o portão interno, vai chegar aos depósitos.
Erik virou o rosto.
— Então não deixa atravessar.
— Excelente plano — retrucou Edinho, seco. — Estou aceitando ideias melhores desde o primeiro toque.
Antes que a troca endurecesse, uma nova voz entrou no meio do calor e da fumaça:
— Parem de tratar isso como incêndio.
Problemática.
Ela surgiu pelo corredor lateral das muralhas com o manto escuro já marcado pela fuligem das passagens internas. Não viera com guarda, escolta ou aviso. Só com os cabelos soltos, o olhar afiado e a expressão de quem estava com pouca paciência para desperdício de tempo.
Edinho soltou um meio riso sem humor.
— Finalmente alguém que veio reclamar com utilidade.
Problemática ignorou o comentário e se aproximou da base da muralha, observando as rachaduras acesas.
— Isso não foi lançado por homens. Nem por arcanos comuns.
Cristal manteve os olhos nas chamas.
— O que é, então?
Problemática passou a mão a poucos centímetros da pedra e fechou os dedos no ar, como se testasse textura invisível.
— Ruptura. Ou início dela. O Véu está encontrando limiares. Portões, entradas, bordas. Lugares de passagem.
Erik franziu o cenho.
— E escolheu o oeste primeiro.
— Talvez porque o oeste já estivesse mais fino.
— Isso é animador — disse Edinho, com secura.
Problemática olhou para ele só o bastante para deixar claro que ouviria menos ironia do que o normal.
— Não precisa ser animador. Precisa ser entendido.
Cristal avançou um passo.
— Dá para conter?
Problemática não respondeu de imediato. Continuou observando o modo como as chamas corriam pela pedra.
— Dá para interromper por janelas curtas. Contenção total, não prometo.
Erik apoiou a mão no punho da espada.
— Então abrimos as janelas e quebramos o resto.
Problemática o olhou de lado.
— Isso foi quase inteligente.
Edinho bufou.
— Já está melhor do que a água.
Cristal puxou uma flecha, mas ainda não a armou.
— Me diz onde.
Problemática ergueu o braço e apontou três pontos da muralha, onde as linhas de fogo se cruzavam.
— Ali. Ali. E ali. Onde a rachadura engrossa. É onde a estrutura está respirando a ruptura.
— “Respirando a ruptura” foi uma escolha excelente de palavras para este momento — disse Erik.
— Eu tento ajudar como posso.
Cristal respirou fundo, firmou os pés no chão e ergueu o arco. As chamas refletiam na curva da madeira de um jeito ruim, como se a luz ali estivesse errada.
Ela escolheu o primeiro ponto e disparou.
A flecha de luz atingiu a interseção da rachadura com um clarão branco e puro. Por um instante, o fogo recuou, encolhendo-se para dentro da pedra como se tivesse levado um susto.
Os soldados mais próximos gritaram, não de pânico, mas de surpresa.
— De novo! — gritou Edinho.
Cristal já armava a segunda.
A flecha acertou o segundo ponto.
Outra retração brusca.
A linha de fogo vacilou.
Erik aproveitou a abertura.
Avançou até a borda do calor, girou o corpo e desferiu um golpe circular rente à base da muralha. A lâmina cruzou o ar com um brilho duro, quase azul, e a energia do golpe cortou o chão antes de atingir a pedra.
As chamas se quebraram em duas linhas menores, incapazes de voltar a se unir de imediato.
Edinho não perdeu a chance.
— Escudos à frente! Não deixem a linha reatar!
Os soldados obedeceram, avançando em formação curta, forçando a pressão física onde a ruptura começava a ceder.
Cristal disparou a terceira flecha.
O impacto foi mais forte que os outros dois. A luz se espalhou por baixo das rachaduras e, por um segundo inteiro, o fogo desapareceu da parede.
Um som atravessou o pátio.
Não era exatamente grito.
Nem estouro.
Era um ruído agudo, fundo, ruim de ouvir, como metal vivo sendo rasgado do lado de dentro.
Então o chão tremeu.
Não com a força de desabamento, mas com a violência curta de algo empurrando de baixo para cima.
Erik recuou um passo automaticamente.
Problemática levantou a cabeça.
— Afastem-se da linha!
Edinho já berrava a mesma ordem quando a pedra diante do portão rachou em espiral.
Dessa vez, não houve chamas subindo pela muralha.
Houve abertura.
Do centro da fissura, alguma coisa se ergueu.
Primeiro vieram as mãos, ou o que quer que cumprisse essa função na criatura: garras longas, feitas de pedra negra rachada, com luz incandescente correndo por dentro como veios de lava presa. Depois o dorso, arqueado, coberto por placas ásperas que se moviam umas sobre as outras.
Por fim, a cabeça, disforme, com chifres partidos e uma boca larga demais para qualquer rosto que tentasse ser compreendido.
Os olhos não tinham pupila.
Só brasa.
O silêncio no pátio durou pouco mais de um segundo. Foi o tempo suficiente para todos entenderem que aquilo não era homem, bicho ou lenda mal contada.
Problemática foi a primeira a nomeá-lo.
— Garneth.
Edinho não desviou o olhar da criatura.
— O quê?
— Um Rupturador.
Erik já tinha a espada firme nas mãos.
— Explica depois.
A criatura soltou um som agudo e avançou.
Não correu como homem.
Não marchou como soldado.
Veio de quatro, rápido demais, o peso enorme distribuído de um jeito que fazia o chão parecer leve para ela. Com um salto só, atingiu a base da torre lateral e bateu contra a pedra com as duas garras dianteiras.
A estrutura inteira gemeu.
Um bloco se soltou e caiu ao lado de dois soldados, levantando poeira e gritos.
— Arqueiros! — berrou Edinho. — Flanco alto!
Cristal já havia entendido que as placas do corpo não eram iguais em toda a superfície. Onde as rachaduras se abriam mais, a luz interna ficava exposta.
Ela puxou uma flecha e disparou sem hesitar. A ponta atingiu uma dessas fissuras no ombro da criatura.
Garneth gritou.
Desta vez, o som veio mais perto de dor.
— As aberturas! — Cristal gritou. — Atirem onde a luz aparece!
Do alto da muralha, os arqueiros obedeceram.
Três flechas desceram juntas. Uma bateu e ricocheteou. Outra se perdeu na placa do dorso. A terceira entrou numa rachadura aberta perto da base do pescoço.
A criatura se virou em fúria e lançou um jato de fogo pela boca. Não era chama larga como a da muralha. Era um fluxo compacto, bruto, quase líquido.
O barril de suprimentos mais próximo explodiu em faíscas e madeira.
Erik aproveitou o giro.
Correu por baixo da linha de calor, entrou pelo lado cego da criatura e golpeou a articulação traseira com toda a força. A lâmina afundou entre duas placas negras.
Garneth reagiu com velocidade assustadora e deu meia volta, acertando Erik de raspão com uma das garras. O impacto o lançou contra a base da muralha. O escudo do antebraço absorveu parte, mas não tudo.
Cristal viu.
— Erik!
Ele não caiu por completo. Ajoelhou um instante, respirou torto, e já estava se levantando de novo.
Edinho avançou com dois soldados pela lateral, não para enfrentar a criatura de frente, mas para puxar atenção e abrir ângulo.
— Pela esquerda! Pela esquerda, agora!
Garneth respondeu ao movimento e investiu contra eles.
Problemática enfim agiu.
Ela abriu os braços, fechou os olhos por um segundo e puxou o ar para dentro como quem comprimia o próprio ambiente. A pressão mudou no pátio inteiro. Poeira, cinza e fumaça giraram na direção dela antes de serem lançadas de volta num impacto concentrado de vento.
A rajada atingiu a lateral da criatura e a empurrou meio corpo para o lado.
Foi pouco.
Mas bastou.
Cristal subiu sobre um trecho baixo de pedra quebrada para ganhar altura e disparou duas flechas em sequência, ambas buscando fendas abertas no peito e na junta do ombro. A luz das pontas entrou como lâmina líquida.
Garneth recuou um passo e soltou outro grito.
Erik voltou ao combate no exato instante em que a criatura perdeu equilíbrio. Avançou pela frente, forçando o olhar dela para si, enquanto Edinho mandava os soldados abrirem espaço.
— Agora ela me vê! — Erik gritou.
— Péssima escolha de frase! — respondeu Cristal, já puxando a terceira flecha.
Erik bateu a espada contra uma das garras e deslizou para o lado antes do segundo ataque. O metal rangeu. A criatura era forte demais para ser parada no choque direto, mas ele não tentava isso.
Tentava tempo.
Tempo para Cristal.
Tempo para Problemática.
Tempo para o portão não cair.
A terceira flecha veio alta e reta. Entrou na fissura aberta no centro do tórax da criatura.
A luz se espalhou por dentro.
Garneth deu um salto para trás e bateu contra a base do portão em convulsão breve, como se houvesse alguma guerra acontecendo entre a pedra externa e o fogo preso dentro dela.
Problemática aproveitou a ruptura.
As palavras que ela murmurou ninguém entendeu por completo. Nem precisava. O ar em torno da criatura esfriou de repente. Gelo e vento comprimido começaram a girar ao redor do corpo de Garneth em espiral apertada, prendendo os movimentos nas juntas mais abertas.
— Segurem! — ela gritou, já sem a frieza inicial na voz. — Eu não mantenho isso por muito tempo!
Edinho ergueu o escudo.
— Ninguém recua!
Os soldados cerraram posição. Arqueiros puxaram mais duas rajadas. Cristal, do alto da pedra, prendeu a respiração e disparou a quarta flecha no mesmo ponto do tórax, aprofundando a rachadura já iluminada.
Erik veio por baixo.
Com os dois pés firmes e o corpo inteiro no golpe, cravou a espada na fenda central no exato instante em que o selo improvisado de gelo e vento apertou mais uma vez.
A criatura parou.
Foi um segundo estranho.
Sem ruído.
Sem fogo.
Sem movimento.
Depois o corpo todo rachou de dentro para fora.
A explosão não foi larga, mas brutal. Cinzas, poeira escura e fragmentos de rocha quente foram lançados para trás. Erik se protegeu com o braço. Cristal saltou da pedra para o chão. Edinho cobriu dois soldados com o escudo.
Problemática recuou um passo só, respirando como quem tinha empurrado mais magia do que gostaria de admitir.
Quando a poeira baixou, Garneth não existia mais.
Só restava a fissura escura no chão. E, ao redor dela, marcas espiraladas queimadas na pedra como cicatriz recente.
Por alguns instantes, ninguém falou.
O fogo na muralha havia diminuído drasticamente. O calor ainda estava ali, mas não dominava mais o portão. Os soldados, um a um, começaram a perceber que estavam vivos.
Edinho foi o primeiro a recuperar a voz.
— Quero baldes aqui mesmo assim. E ninguém toca nessa rachadura sem eu mandar.
Erik limpou a fuligem do canto da boca com o dorso da mão.
— Ótima regra.
Cristal desceu da pedra quebrada e foi até ele.
— Está ferido?
— Menos do que parece.
— Isso geralmente significa mais do que parece.
— Ainda ando. Isso já resolve metade.
Ela olhou para a armadura marcada no antebraço e fez cara de quem não estava convencida.
Problemática aproximou-se da fissura no chão, mas parou antes de chegar perto demais. A respiração ainda saía curta.
Edinho notou.
— Vai cair se eu te der mais trabalho?
— Talvez. Mas ainda não.
Ele assentiu, quase respeitoso demais para o próprio padrão.
Cristal olhou para a marca espiralada deixada na pedra.
— Então isso não foi só ataque.
Problemática passou os olhos pelo desenho queimado.
— Não.
— Foi o quê?
A arcana demorou um pouco.
— Um teste. Ou um aviso.
Erik olhou a muralha marcada, os restos de calor e a rachadura negra no chão.
— Para quem?
Problemática respondeu sem tirar os olhos da marca.
— Para saber se o portão ainda aguenta.
O vento mudou de direção e levou a fumaça restante para fora do pátio. Pela primeira vez desde o alarme, o céu começava a clarear de verdade.
Não havia paz naquilo.
Só visibilidade.
Edinho apoiou o escudo no chão e observou a muralha danificada.
— Então a próxima vez pode ser pior.
Ninguém respondeu.
Porque todos sabiam.
E o Portão Oeste também.