Livro I – A Flecha e o Véu — Capítulo 5

Chamas no Portão Oeste

Quando o Portão Oeste é tomado por chamas que nascem da própria pedra, Cristal, Erik, Edinho e Problemática precisam agir antes que a ruptura avance pelas muralhas. Mas o fogo revela algo pior do que um incêndio: o Véu está testando as defesas de Sagittaria.

Não era mais só o Véu que dava sinais.

Agora era o portão.

O oeste sempre parecera um pouco diferente do restante de Sagittaria. Mais exposto. Mais seco em certos dias, mais frio em outros, mesmo quando o clima do reino não acompanhava. Os soldados antigos diziam que o lado oeste escutava primeiro o que vinha de fora. Os mais jovens riam disso até passarem uma noite completa nas muralhas e perceberem que o lugar tinha, de fato, um jeito próprio de ficar quieto.

Naquela madrugada, a quietude acabou cedo.

O alarme soou antes do amanhecer: três toques curtos, um longo, todos metálicos, graves, antigos demais para serem confundidos com treinamento.

Quem conhecia o código sabia o que aquilo queria dizer.

Ameaça próxima.

Ameaça séria.

Cristal despertou no primeiro toque. Nem pensou. Já estava de pé antes do último eco morrer nos corredores. Não vestiu a armadura inteira; só as peças principais, o suficiente para sair com velocidade e ainda carregar o peso certo da função que o reino esperava dela.

Prendeu o arco nas costas, ajustou a braçadeira e abriu a porta do aposento já ouvindo passos vindos do outro lado do corredor.

Erik vinha ao encontro dela.

Não precisaram trocar mais de um olhar.

— Oeste? — ela perguntou.

— Oeste.

— Fogo?

— Pelo cheiro, sim.

— Natural?

Erik já sabia a resposta, mas mesmo assim disse:

— Duvido.

Desceram juntos pelo corredor estreito que levava ao pátio inferior. O castelo ainda estava meio escuro, com tochas apagando aos poucos e gente surgindo às pressas de portas e escadas, alguns ainda tentando entender o que ouviram, outros já vestidos para correr.

Lá fora, no pátio, o ar trazia um gosto amargo de fumaça.

Erik já tinha dois cavalos sendo preparados. Um soldado se aproximou e entregou a ele as rédeas com as mãos trêmulas.

— A patrulha do oeste mandou dizer que o fogo começou nas próprias pedras, senhor.

Cristal montou sem perder tempo.

— Nas pedras?

— Sim, senhora. E sobe contra o vento.

Ela trocou um olhar rápido com Erik.

Não precisavam discutir ali.

Partiram.

O trajeto até o Portão Oeste foi feito em galope duro, acompanhado por quatro soldados de elite e pelo ruído seco dos cascos quebrando o silêncio da manhã. O céu ainda não tinha clareado por completo, mas já era possível ver, acima das muralhas distantes, uma coluna escura se levantando num movimento torto, como se a fumaça estivesse sendo puxada para o alto por vontade própria.

Cristal sentiu a mudança no ar antes de chegarem perto o bastante para ver as chamas. O calor não vinha distribuído de modo natural. Havia bolsões. O frio da madrugada persistia no rosto, mas do lado esquerdo do caminho o ar estava seco e agressivo, como saída de fornalha mal fechada.

Erik também percebeu.

— Isso não está queimando. Está consumindo.

— Eu pensei o mesmo.

Quando alcançaram o pátio externo do Portão Oeste, a cena deixou de ser dúvida.

As chamas subiam pelas pedras como se tivessem nascido dentro delas. Não eram largas e soltas como fogo comum. Eram compactas, vivas, presas em linhas que subiam pelas rachaduras da muralha e se espalhavam em curvas rápidas, quase procurando passagem.

Soldados já tentavam conter o avanço com baldes, mantas encharcadas e areia, mas nada segurava mais do que alguns segundos. A água atingia o fogo e parecia evaporar cedo demais, como se nem tivesse tocado a superfície.

Cristal desmontou antes mesmo de o cavalo parar por completo.

Erik veio logo atrás.

No centro da movimentação, Edinho já gritava ordens com a voz rouca de quem estava ali desde o primeiro sinal. A armadura dele trazia fuligem no ombro e marcas de calor nas bordas do escudo.

Quando viu os dois se aproximando, não perdeu tempo com formalidade.

— Começou na base da muralha leste do portão e subiu como se soubesse onde andar. Já tentamos água, areia e cobertura. Nada segura.

Cristal observou as fissuras acesas na pedra.

— Há feridos?

— Dois queimados. Um sufocado pela fumaça. E metade da guarnição já está convencida de que a muralha vai rachar.

Erik andou até o limite seguro e ergueu a mão livre na direção do calor. A sensação veio forte e estranha, como se o fogo não estivesse tentando apenas queimar, mas puxar.

Ele recuou um pouco.

— Não é chama comum. Ela drena.

Edinho bateu o cabo da lança no chão, irritado.

— Eu percebi isso na hora em que vi a água sumir antes de cair.

Cristal passou os olhos por toda a extensão do portão. As linhas de fogo se contorciam como nervos sob a pedra. Quanto mais os soldados tentavam abafá-las, mais elas pareciam se reorganizar.

— Civis?

— Tirados da área — respondeu Edinho. — Mas se isso atravessar o portão interno, vai chegar aos depósitos.

Erik virou o rosto.

— Então não deixa atravessar.

— Excelente plano — retrucou Edinho, seco. — Estou aceitando ideias melhores desde o primeiro toque.

Antes que a troca endurecesse, uma nova voz entrou no meio do calor e da fumaça:

— Parem de tratar isso como incêndio.

Problemática.

Ela surgiu pelo corredor lateral das muralhas com o manto escuro já marcado pela fuligem das passagens internas. Não viera com guarda, escolta ou aviso. Só com os cabelos soltos, o olhar afiado e a expressão de quem estava com pouca paciência para desperdício de tempo.

Edinho soltou um meio riso sem humor.

— Finalmente alguém que veio reclamar com utilidade.

Problemática ignorou o comentário e se aproximou da base da muralha, observando as rachaduras acesas.

— Isso não foi lançado por homens. Nem por arcanos comuns.

Cristal manteve os olhos nas chamas.

— O que é, então?

Problemática passou a mão a poucos centímetros da pedra e fechou os dedos no ar, como se testasse textura invisível.

— Ruptura. Ou início dela. O Véu está encontrando limiares. Portões, entradas, bordas. Lugares de passagem.

Erik franziu o cenho.

— E escolheu o oeste primeiro.

— Talvez porque o oeste já estivesse mais fino.

— Isso é animador — disse Edinho, com secura.

Problemática olhou para ele só o bastante para deixar claro que ouviria menos ironia do que o normal.

— Não precisa ser animador. Precisa ser entendido.

Cristal avançou um passo.

— Dá para conter?

Problemática não respondeu de imediato. Continuou observando o modo como as chamas corriam pela pedra.

— Dá para interromper por janelas curtas. Contenção total, não prometo.

Erik apoiou a mão no punho da espada.

— Então abrimos as janelas e quebramos o resto.

Problemática o olhou de lado.

— Isso foi quase inteligente.

Edinho bufou.

— Já está melhor do que a água.

Cristal puxou uma flecha, mas ainda não a armou.

— Me diz onde.

Problemática ergueu o braço e apontou três pontos da muralha, onde as linhas de fogo se cruzavam.

— Ali. Ali. E ali. Onde a rachadura engrossa. É onde a estrutura está respirando a ruptura.

— “Respirando a ruptura” foi uma escolha excelente de palavras para este momento — disse Erik.

— Eu tento ajudar como posso.

Cristal respirou fundo, firmou os pés no chão e ergueu o arco. As chamas refletiam na curva da madeira de um jeito ruim, como se a luz ali estivesse errada.

Ela escolheu o primeiro ponto e disparou.

A flecha de luz atingiu a interseção da rachadura com um clarão branco e puro. Por um instante, o fogo recuou, encolhendo-se para dentro da pedra como se tivesse levado um susto.

Os soldados mais próximos gritaram, não de pânico, mas de surpresa.

— De novo! — gritou Edinho.

Cristal já armava a segunda.

A flecha acertou o segundo ponto.

Outra retração brusca.

A linha de fogo vacilou.

Erik aproveitou a abertura.

Avançou até a borda do calor, girou o corpo e desferiu um golpe circular rente à base da muralha. A lâmina cruzou o ar com um brilho duro, quase azul, e a energia do golpe cortou o chão antes de atingir a pedra.

As chamas se quebraram em duas linhas menores, incapazes de voltar a se unir de imediato.

Edinho não perdeu a chance.

— Escudos à frente! Não deixem a linha reatar!

Os soldados obedeceram, avançando em formação curta, forçando a pressão física onde a ruptura começava a ceder.

Cristal disparou a terceira flecha.

O impacto foi mais forte que os outros dois. A luz se espalhou por baixo das rachaduras e, por um segundo inteiro, o fogo desapareceu da parede.

Um som atravessou o pátio.

Não era exatamente grito.

Nem estouro.

Era um ruído agudo, fundo, ruim de ouvir, como metal vivo sendo rasgado do lado de dentro.

Então o chão tremeu.

Não com a força de desabamento, mas com a violência curta de algo empurrando de baixo para cima.

Erik recuou um passo automaticamente.

Problemática levantou a cabeça.

— Afastem-se da linha!

Edinho já berrava a mesma ordem quando a pedra diante do portão rachou em espiral.

Dessa vez, não houve chamas subindo pela muralha.

Houve abertura.

Do centro da fissura, alguma coisa se ergueu.

Primeiro vieram as mãos, ou o que quer que cumprisse essa função na criatura: garras longas, feitas de pedra negra rachada, com luz incandescente correndo por dentro como veios de lava presa. Depois o dorso, arqueado, coberto por placas ásperas que se moviam umas sobre as outras.

Por fim, a cabeça, disforme, com chifres partidos e uma boca larga demais para qualquer rosto que tentasse ser compreendido.

Os olhos não tinham pupila.

Só brasa.

O silêncio no pátio durou pouco mais de um segundo. Foi o tempo suficiente para todos entenderem que aquilo não era homem, bicho ou lenda mal contada.

Problemática foi a primeira a nomeá-lo.

— Garneth.

Edinho não desviou o olhar da criatura.

— O quê?

— Um Rupturador.

Erik já tinha a espada firme nas mãos.

— Explica depois.

A criatura soltou um som agudo e avançou.

Não correu como homem.

Não marchou como soldado.

Veio de quatro, rápido demais, o peso enorme distribuído de um jeito que fazia o chão parecer leve para ela. Com um salto só, atingiu a base da torre lateral e bateu contra a pedra com as duas garras dianteiras.

A estrutura inteira gemeu.

Um bloco se soltou e caiu ao lado de dois soldados, levantando poeira e gritos.

— Arqueiros! — berrou Edinho. — Flanco alto!

Cristal já havia entendido que as placas do corpo não eram iguais em toda a superfície. Onde as rachaduras se abriam mais, a luz interna ficava exposta.

Ela puxou uma flecha e disparou sem hesitar. A ponta atingiu uma dessas fissuras no ombro da criatura.

Garneth gritou.

Desta vez, o som veio mais perto de dor.

— As aberturas! — Cristal gritou. — Atirem onde a luz aparece!

Do alto da muralha, os arqueiros obedeceram.

Três flechas desceram juntas. Uma bateu e ricocheteou. Outra se perdeu na placa do dorso. A terceira entrou numa rachadura aberta perto da base do pescoço.

A criatura se virou em fúria e lançou um jato de fogo pela boca. Não era chama larga como a da muralha. Era um fluxo compacto, bruto, quase líquido.

O barril de suprimentos mais próximo explodiu em faíscas e madeira.

Erik aproveitou o giro.

Correu por baixo da linha de calor, entrou pelo lado cego da criatura e golpeou a articulação traseira com toda a força. A lâmina afundou entre duas placas negras.

Garneth reagiu com velocidade assustadora e deu meia volta, acertando Erik de raspão com uma das garras. O impacto o lançou contra a base da muralha. O escudo do antebraço absorveu parte, mas não tudo.

Cristal viu.

— Erik!

Ele não caiu por completo. Ajoelhou um instante, respirou torto, e já estava se levantando de novo.

Edinho avançou com dois soldados pela lateral, não para enfrentar a criatura de frente, mas para puxar atenção e abrir ângulo.

— Pela esquerda! Pela esquerda, agora!

Garneth respondeu ao movimento e investiu contra eles.

Problemática enfim agiu.

Ela abriu os braços, fechou os olhos por um segundo e puxou o ar para dentro como quem comprimia o próprio ambiente. A pressão mudou no pátio inteiro. Poeira, cinza e fumaça giraram na direção dela antes de serem lançadas de volta num impacto concentrado de vento.

A rajada atingiu a lateral da criatura e a empurrou meio corpo para o lado.

Foi pouco.

Mas bastou.

Cristal subiu sobre um trecho baixo de pedra quebrada para ganhar altura e disparou duas flechas em sequência, ambas buscando fendas abertas no peito e na junta do ombro. A luz das pontas entrou como lâmina líquida.

Garneth recuou um passo e soltou outro grito.

Erik voltou ao combate no exato instante em que a criatura perdeu equilíbrio. Avançou pela frente, forçando o olhar dela para si, enquanto Edinho mandava os soldados abrirem espaço.

— Agora ela me vê! — Erik gritou.

— Péssima escolha de frase! — respondeu Cristal, já puxando a terceira flecha.

Erik bateu a espada contra uma das garras e deslizou para o lado antes do segundo ataque. O metal rangeu. A criatura era forte demais para ser parada no choque direto, mas ele não tentava isso.

Tentava tempo.

Tempo para Cristal.

Tempo para Problemática.

Tempo para o portão não cair.

A terceira flecha veio alta e reta. Entrou na fissura aberta no centro do tórax da criatura.

A luz se espalhou por dentro.

Garneth deu um salto para trás e bateu contra a base do portão em convulsão breve, como se houvesse alguma guerra acontecendo entre a pedra externa e o fogo preso dentro dela.

Problemática aproveitou a ruptura.

As palavras que ela murmurou ninguém entendeu por completo. Nem precisava. O ar em torno da criatura esfriou de repente. Gelo e vento comprimido começaram a girar ao redor do corpo de Garneth em espiral apertada, prendendo os movimentos nas juntas mais abertas.

— Segurem! — ela gritou, já sem a frieza inicial na voz. — Eu não mantenho isso por muito tempo!

Edinho ergueu o escudo.

— Ninguém recua!

Os soldados cerraram posição. Arqueiros puxaram mais duas rajadas. Cristal, do alto da pedra, prendeu a respiração e disparou a quarta flecha no mesmo ponto do tórax, aprofundando a rachadura já iluminada.

Erik veio por baixo.

Com os dois pés firmes e o corpo inteiro no golpe, cravou a espada na fenda central no exato instante em que o selo improvisado de gelo e vento apertou mais uma vez.

A criatura parou.

Foi um segundo estranho.

Sem ruído.

Sem fogo.

Sem movimento.

Depois o corpo todo rachou de dentro para fora.

A explosão não foi larga, mas brutal. Cinzas, poeira escura e fragmentos de rocha quente foram lançados para trás. Erik se protegeu com o braço. Cristal saltou da pedra para o chão. Edinho cobriu dois soldados com o escudo.

Problemática recuou um passo só, respirando como quem tinha empurrado mais magia do que gostaria de admitir.

Quando a poeira baixou, Garneth não existia mais.

Só restava a fissura escura no chão. E, ao redor dela, marcas espiraladas queimadas na pedra como cicatriz recente.

Por alguns instantes, ninguém falou.

O fogo na muralha havia diminuído drasticamente. O calor ainda estava ali, mas não dominava mais o portão. Os soldados, um a um, começaram a perceber que estavam vivos.

Edinho foi o primeiro a recuperar a voz.

— Quero baldes aqui mesmo assim. E ninguém toca nessa rachadura sem eu mandar.

Erik limpou a fuligem do canto da boca com o dorso da mão.

— Ótima regra.

Cristal desceu da pedra quebrada e foi até ele.

— Está ferido?

— Menos do que parece.

— Isso geralmente significa mais do que parece.

— Ainda ando. Isso já resolve metade.

Ela olhou para a armadura marcada no antebraço e fez cara de quem não estava convencida.

Problemática aproximou-se da fissura no chão, mas parou antes de chegar perto demais. A respiração ainda saía curta.

Edinho notou.

— Vai cair se eu te der mais trabalho?

— Talvez. Mas ainda não.

Ele assentiu, quase respeitoso demais para o próprio padrão.

Cristal olhou para a marca espiralada deixada na pedra.

— Então isso não foi só ataque.

Problemática passou os olhos pelo desenho queimado.

— Não.

— Foi o quê?

A arcana demorou um pouco.

— Um teste. Ou um aviso.

Erik olhou a muralha marcada, os restos de calor e a rachadura negra no chão.

— Para quem?

Problemática respondeu sem tirar os olhos da marca.

— Para saber se o portão ainda aguenta.

O vento mudou de direção e levou a fumaça restante para fora do pátio. Pela primeira vez desde o alarme, o céu começava a clarear de verdade.

Não havia paz naquilo.

Só visibilidade.

Edinho apoiou o escudo no chão e observou a muralha danificada.

— Então a próxima vez pode ser pior.

Ninguém respondeu.

Porque todos sabiam.

E o Portão Oeste também.