Livro I – A Flecha e o Véu — Capítulo 7

Débi entre Sombras

Enquanto Sagittaria tenta compreender os sinais deixados pelo Véu, Débi segue sozinha até as Ruínas de Varneth, onde uma sombra usa seus desejos mais íntimos como arma. Diante de uma vida que poderia ter sido sua, ela precisa reafirmar quem é — e descobrir que certas ameaças não atacam apenas o corpo, mas também o nome, a memória e a escolha.

Depois do que aconteceu no Portão Oeste, o medo já não precisava mais se esconder atrás de boas maneiras, silêncio administrativo ou discurso de salão. Ele estava solto no castelo, nas trilhas do reino e nos rostos de quem tentava continuar a rotina como se rotina ainda bastasse.

Mensageiros enviados ao norte não voltaram.

Alguns diziam que tinham se perdido entre as rotas antigas. Outros juravam que os homens tinham encontrado algo pior do que um inimigo comum: alguma coisa que não se deixava contar direito depois de vista.

Jean seguia ausente.

E, nas ausências dele, havia lugares para onde ninguém queria mandar patrulha inteira, guarda oficial ou voz em tom de comando. Lugares onde uma bandeira só faria barulho demais.

Era para lá que Débi ia.

Na noite anterior, Cristal a encontrara na ala leste, junto à muralha de treino onde os arqueiros costumavam praticar até o sol cair. A chuva daquela tarde deixara o chão escuro, e o cheiro de corda molhada ainda pairava no ar.

Nenhuma das duas falou de ordem, dever ou destino.

Cristal só tirou da própria guarda uma flecha de prata e a estendeu.

A ponta era leve e afiada, feita de um metal que parecia beber a luz em vez de refletir. Runas silenciosas corriam pela haste em marcas quase invisíveis. Não era arma de desfile. Era coisa feita para uma necessidade precisa.

Débi pegou a flecha com as duas mãos.

Os olhos das duas se encontraram por um instante.

Cristal não disse “volte”. Não disse “tome cuidado”. Não disse “você precisa”.

Não era o tipo de despedida que pedia palavra.

Débi também não respondeu. Guardou a flecha na aljava, assentiu de leve e partiu antes que mais alguém transformasse aquilo em cerimônia.

Agora caminhava sozinha pelas Ruínas de Varneth.

O extremo norte de Sagittaria tinha um frio próprio, mas ali o desconforto não vinha só da temperatura. O ar carregava cheiro de metal velho, musgo encharcado e alguma coisa parada havia tanto tempo que já não parecia pertencer ao mesmo calendário dos vivos.

As colunas quebradas se erguiam sob névoa eterna, e o chão de pedra rachada parecia guardar umidade até onde não havia água.

Nenhum animal cantava.

Nenhuma folha se movia.

Até o vento parecia escolher não tocar o lugar diretamente.

Débi seguia com passos curtos e firmes, medindo o peso do corpo antes de cada apoio. O arco ia na mão esquerda; a outra permanecia livre perto da adaga curta presa à cintura.

Não havia pressa no movimento dela, mas também não havia hesitação.

O jeito de Débi entrar em ruínas era o mesmo jeito de alguém entrar numa oração antiga: sem distração, sem espetáculo, sem esperar que o lugar fosse gentil.

No começo da trilha entre as colunas, tentou manter a mente vazia como fazia em missões pelas florestas do norte.

Respirar.

Observar.

Não oferecer pensamento demais ao que talvez estivesse escutando.

Mas Varneth não ajudava.

As pedras não pareciam só antigas. Pareciam atentas. Os muros caídos formavam desenhos incompletos, quase símbolos. As colunas, quando vistas pela visão periférica, pareciam ligeiramente desalinhadas do ponto em que deveriam estar, como se o lugar se reorganizasse devagar quando ninguém o encarava de frente.

Débi passou por um arco quebrado, atravessou uma praça consumida pela névoa e encontrou a escadaria.

Irregular, escondida em parte por uma raiz grossa petrificada contra a pedra, ela descia para um corredor estreito de paredes úmidas.

Débi parou no alto por um instante, escutando.

Nada.

Ou pior: nada demais.

Desceu.

As inscrições nas paredes começavam logo no terceiro degrau. Algumas tinham sido riscadas por lâmina, outras pareciam ter crescido na pedra como fungo escuro. Nem todas pertenciam ao mesmo idioma. Nem todas eram feitas para leitura.

Havia marcas de repetição, espirais cortadas, sinais de proteção antiga e rachaduras finas correndo por baixo delas como veias.

Débi tocou uma dessas marcas com a ponta dos dedos, só o suficiente para sentir a umidade.

Fria.

Mas viva de um jeito errado.

No fim do corredor, a sala circular a esperava.

Ela soube antes de entrar que era ali.

No centro da sala, uma mulher ajoelhada.

Cabelos longos cobrindo o rosto. Ombros tremendo de leve, como alguém tentando chorar sem som. Não havia sangue. Não havia corrente. Não havia arma visível.

Só aquela figura curvada sobre si mesma, imóvel o bastante para pedir pena antes de qualquer outra reação.

Débi avançou dois passos.

Sentiu primeiro compaixão.

E logo depois, desconfiança.

A mulher ergueu o rosto.

Era ela mesma.

O mesmo corte de cabelo. As mesmas linhas finas perto dos olhos. A mesma boca, a mesma inclinação do maxilar, a mesma postura do tronco quando precisava conter alguma coisa por dentro.

Mas o olhar estava vazio.

Não vazio de emoção.

Vazio de presença.

Como se o corpo tivesse sido copiado e a alma esquecida no caminho.

A voz da cópia saiu baixa, doce e íntima demais.

— Você não lembra?

Débi não respondeu.

A cópia inclinou um pouco a cabeça, como quem tenta falar com alguém que está sendo teimosa por medo de aceitar.

— Você escolheu não vir. Ficou onde era segura. Onde podia ensinar. Onde podia amar. Onde podia ser você.

A flecha prata-luar pesou na aljava.

Não fisicamente.

Como chamado.

Débi continuou parada, o arco baixo, os olhos fixos no rosto idêntico diante dela.

— Não tem que lutar por um reino que nem sempre lembra seu nome — continuou a cópia. — Você podia estar viva em paz. Não viva em guerra.

As palavras vinham da boca.

Mas não só dela.

Elas tocavam as paredes, voltavam pelo teto e escorriam pelo chão como se a sala inteira repetisse a tentação com outras vozes por baixo da primeira.

Não eram frases inventadas ao acaso.

Eram compostas com matéria mais perigosa: possibilidade.

Por um segundo, Débi viu.

Uma casa pequena de madeira. Uma porta vermelha. Luz baixa entrando pela janela ao fim da tarde. Um cesto de roupa sobre a cadeira. Alguém sorrindo para ela sem exigir flecha, sangue ou renúncia em troca.

Uma vida inteira montada não em glória, mas em permanência.

Aquilo quase a alcançou.

Não porque fosse mentira.

Porque era plausível.

Débi sentiu um aperto curto no peito. Não de desejo simples, mas de luto por algo que nunca teve o direito de viver até o fim.

Ainda assim, não respondeu.

A cópia se levantou devagar.

— Você poderia ter sido feliz — disse ela, agora sem doçura fingida, só com a dureza de quem sabe onde a outra é mais vulnerável.

Débi inspirou pelo nariz e, só então, baixou os olhos para o chão.

Seus próprios pés estavam firmes sobre aquelas pedras esquecidas.

Aquilo ajudou.

Não a desfazer a dor.

Mas a recolocar o corpo dentro da escolha.

Ela ergueu o rosto.

— Essa vida que você me mostra pode até ser bonita.

A cópia esperou.

— Mas não é a minha.

Os olhos da outra escureceram um pouco, como tinta se espalhando em água.

— É a que você quis.

Débi não levantou a voz.

— Foi a que eu deixei.

Um segundo de silêncio.

— E continuo escolhendo todos os dias não voltar.

A sala reagiu.

As runas nas paredes acenderam em azul duro. O ar ficou denso de uma vez, tão pesado que respirar pareceu trabalho físico. A cópia perdeu a nitidez do rosto primeiro, como se as bordas da pele começassem a falhar. Os dedos alongaram. A boca se abriu além do natural.

O eco da voz mudou de textura, ganhando um fundo gutural, animal, arrastado.

O Véu rasgou ali dentro.

Não em abertura grande.

Em fresta viva.

E a sombra atacou.

Débi se moveu antes de pensar.

A primeira investida veio alta, com garras rasgando o ar onde o pescoço dela estaria um instante antes. Ela girou para o lado, sentiu a manga ser cortada e bateu a adaga curta na lateral do braço distorcido da criatura.

O golpe não perfurou como faria em carne. Abriu uma rachadura de luz azulada, e da rachadura saiu um fragmento de imagem — a mesma casa, a mesma porta vermelha — que se desfez no ar assim que tocou o chão.

Então era isso.

Cada ferida desfazia uma mentira.

A criatura atacou outra vez, agora usando peso e impulso mais do que forma. Débi recuou dois passos, baixou o corpo e sentiu o vento do golpe passar por cima.

O arco veio para a mão com um movimento treinado, rápido, sem beleza extra. Ela não tinha espaço para distância ideal, mas também não precisava.

A primeira flecha comum saiu curta e entrou no ombro da manifestação.

Outra rachadura.

Outra falsa lembrança se abriu e morreu.

A coisa soltou um som ruim, entre raiva e insistência.

Débi não tentou vencer aquilo com força maior.

Lutou como quem quebra tecido.

Golpe por golpe, abertura por abertura, forçando a forma a se sustentar onde ela já não conseguia mais.

Cada recuo da criatura deixava no ar pedaços de vida não vivida: uma sala de aula, mãos menores segurando a dela, uma mesa posta para dois, tardes sem armadura nem patrulha.

Varneth sabia muito bem o tipo de ausência que escolhera usar contra ela.

Débi também sabia.

Por isso não falou mais nada.

Só lutou.

A adaga rasgava. O arco afastava. Os passos mantinham a distância certa. Quando a criatura tentava aproximar o rosto humano demais outra vez, ela já mudava o ângulo e obrigava a sombra a mostrar garras, rachadura, vazio.

Até que a abertura apareceu.

No centro do vulto, onde o peito deveria ser.

Uma fissura maior, pulsando azul, como se o corpo inteiro da manifestação dependesse daquilo para continuar imitando forma.

Débi sentiu a prata-luar chamar com clareza.

Puxou a flecha especial da aljava.

A sombra percebeu tarde demais.

Houve um último avanço, mais rápido que os anteriores, como se a criatura entendesse que o próximo movimento encerraria a sala, a tentação e o jogo.

Débi plantou o pé direito entre duas pedras firmes, ergueu o arco e soltou a corda sem grito, sem anúncio, sem frase final.

A prata-luar atravessou a distância curta como linha de luar firme.

Entrou no centro da fissura.

Não houve sangue.

A criatura abriu a boca, mas o som não saiu inteiro. A forma rachou inteira de dentro para fora e se desfez em fragmentos de luz azulada que subiram ao teto como cinzas leves e desapareceram entre as runas.

A sala ficou imóvel.

Débi respirou uma vez, depois outra.

O corpo ainda estava pronto para mais um ataque, mas ele não veio.

No centro da câmara, onde antes a cópia existira, agora restava um espelho trincado preso à rocha como uma flor morta. A moldura, coberta de poeira ancestral, parecia parte da própria parede. Não era objeto colocado depois.

Era núcleo antigo do lugar.

Débi se aproximou devagar.

Seu reflexo surgiu primeiro.

Cansado. Sujo de pedra e umidade.

Real.

Depois mudou.

O espelho mostrou um céu cheio de rachaduras. Não nuvens partidas: o próprio alto do mundo, cortado como vidro prestes a ceder. Abaixo, um campo tomado por figuras sem rosto, alinhadas como exército sem nome. E, por trás de tudo, um som distante — alguém chorando onde o tempo não passava.

A visão durou pouco.

Mas deixou peso.

Débi não tentou interpretar além do que podia sustentar naquele momento. Não ali. Não sozinha. Não depois de Varneth já ter mostrado o bastante para provar que escolheria sempre a ferida certa para abrir caminho.

Ela tocou a moldura do espelho com dois dedos.

Fria.

Antiga.

E estranhamente oca.

Guardou a mão de volta.

A prata-luar não permanecera no centro da sala. Tinha cumprido sua função e agora repousava no chão, opaca, quase comum, como arma que exaure o brilho no exato ponto em que decide.

Débi a recolheu, limpou a haste no próprio manto e a colocou de volta na aljava.

Então saiu.

Subiu o corredor de pedra mais rápido do que descera, mas sem correr. Na superfície, a névoa das ruínas continuava a mesma.

Colunas negras.

Musgo.

Ar metálico.

Nenhum pássaro.

Nenhuma testemunha.

E, ainda assim, ela já não atravessava Varneth do mesmo modo.

Algo tinha ficado mais claro.

Não sobre o futuro inteiro. Não sobre o espelho. Não sobre o que, exatamente, chorava onde o tempo não passava.

Mas sobre si.

A sombra dentro da sala não oferecera apenas ilusão. Oferecera uma versão possível de vida. Débi a reconhecera.

E mesmo assim escolhera a outra, mais uma vez.

Havia dor nisso.

Mas também havia nitidez.

Quando alcançou a parte alta das ruínas, o céu do norte começava a escurecer em tons de chumbo. O vento passava por entre as colunas como respiração contida. Débi parou por um instante e olhou para trás.

Varneth continuava ali, meio cidade, meio eco.

Ela pensou em Cristal.

Pensou em Problemática.

As duas entenderiam o suficiente.

Cristal entenderia o peso do gesto sem pedir justificativa demais. Problemática entenderia o perigo do espelho antes mesmo de ouvir a descrição inteira.

Quanto a ela, pela primeira vez em muitos dias, não precisava esperar ninguém lhe traduzir o sentido da própria escolha.

Já sabia.

Seguiu de volta pela trilha em silêncio.

Não o silêncio sedutor que a cópia tentara usar contra ela.

O outro.

O que resta quando a dúvida mais íntima é atravessada e, mesmo dolorida, não vence.

A noite caiu antes que ela deixasse por completo a região de Varneth. Débi não acendeu fogo. Não por medo de atrair coisa alguma, mas porque o escuro dali parecia menos hostil do que certas possibilidades que ainda carregava nas costas.

Montou um abrigo curto junto a uma formação de pedra inclinada e permaneceu sentada por muito tempo, o arco atravessado sobre os joelhos.

A flecha prata-luar descansava de novo na aljava, muda.

Débi ergueu os olhos para o céu nublado.

O mundo ainda estava em ordem, ao menos por fora. Mas havia rachaduras demais aparecendo em lugares diferentes para que alguém acreditasse, com honestidade, que aquilo terminaria em Varneth.

Os mensageiros sumidos.

O Portão Oeste.

Orien.

A Biblioteca Submersa.

O espelho trincado.

As peças não estavam separadas.

Só ainda não tinham revelado a figura inteira.

Ela fechou os olhos por um instante e ouviu a própria respiração.

Depois, bem baixo, sem solenidade, só como lembrança necessária, disse para si:

— Meu nome é Débi.

Abriu os olhos.

— E eu ainda estou aqui.

O vento passou uma vez entre as pedras, mais leve do que antes.

Na manhã seguinte, ela retomaria o caminho para Sagittaria.

Mas naquela noite, entre as ruínas que ainda a observavam de longe e o norte que continuava guardando vozes sem boca, Débi permaneceu acordada não como quem temia o que viria.

E sim como quem finalmente sabia por que não podia recuar.