Lenda

Contra o Dragão

Quando o céu escureceu sobre Sagittaria e um dragão desceu sobre o reino, o povo passou a repetir que, naquela noite, a flecha e a espada lutaram como se fossem uma só arma.

Contra o Dragão

Dizem que os dragões não pertencem a Sagittaria.

Não nasceram em suas montanhas, não dormem em suas florestas e não obedecem às leis silenciosas que regem os guardiões antigos do reino. Quando um dragão cruza os céus de Sagittaria, os mais velhos não falam primeiro de guerra. Falam de desequilíbrio. Falam do Véu. Falam daquelas horas em que o mundo parece se abrir por dentro e deixar passar forças que não foram feitas para caminhar entre os homens.

Foi assim naquela estação em que o céu passou três dias sem escurecer por completo, como se a luz estivesse doente e não soubesse mais onde terminar.

Na primeira manhã, os rebanhos recusaram água. Na segunda, os cães do castelo rosnaram para o alto sem ver inimigo algum. Na terceira, antes do sol tocar o ponto mais alto das muralhas, a sombra atravessou Sagittaria como um navio queimando por dentro.

Primeiro vieram os gritos.

Não de soldados. Do povo.

Mulheres puxaram crianças para dentro das casas. Mercadores abandonaram carroças no meio da rua. Um sino foi tocado cedo demais, depois outro, depois todos ao mesmo tempo, até que o reino inteiro pareceu bater metal contra metal para convencer a si mesmo de que ainda estava desperto.

Quando os guardas ergueram os olhos, o dragão já vinha descendo.

Era maior do que qualquer ave e mais antigo do que qualquer ruína viva. As escamas tinham o tom escuro do cobre queimado, cortadas por reflexos vermelhos que corriam pelo corpo como rios de brasa. As asas não pareciam feitas para voar em ar humano. Pareciam feitas para rasgar distância. E os olhos — é disso que mais se lembra quem sobreviveu — não tinham a fúria cega de um bicho. Tinham intenção.

A criatura cruzou o céu sobre o mercado alto e lançou a primeira rajada sobre uma das torres externas do castelo. A chama não caiu como fogo comum. Desceu em linha e depois se abriu, varrendo pedra, madeira e bandeiras com a precisão de uma sentença.

Naquela hora, Cristal e Erik já estavam em movimento.

Não havia cerimônia, corte ou distância entre eles e o perigo quando Sagittaria chamava. Os dois surgiram no pátio interno como surgem certas respostas que o reino só reconhece no instante em que precisa delas. Cristal trazia o arco nas mãos, não como símbolo, mas como instrumento vivo. Erik vinha ao lado, a espada já fora da bainha, firme, limpa, com a mesma sobriedade de quem não precisa parecer maior para entrar numa batalha.

Os soldados abriram passagem sem que ninguém pedisse.

Quem viu aquele momento mais de perto jurou depois que nenhum dos dois correu. E era verdade. Correr é gesto de quem tenta alcançar. Eles não estavam tentando alcançar coisa alguma. Já tinham chegado.

Do alto da muralha leste, Cristal avaliou o céu. O dragão descrevia um círculo largo sobre o castelo, como se estudasse onde ferir outra vez. Erik olhou o pátio abaixo, as tropas tentando organizar os civis, a fumaça subindo da torre ferida, as linhas de arqueiros buscando posição sem certeza de que flecha humana bastaria contra uma criatura daquelas.

— Ele vai mergulhar de novo — disse Erik.

Cristal não tirou os olhos do céu.

— Vai.

— Você precisa de altura.

Ela assentiu.

— E você precisa tirá-lo do movimento.

Erik a olhou de lado por um instante breve, como tantas vezes antes de uma decisão que não precisava ser explicada por inteiro.

— Então fazemos do jeito difícil.

Cristal quase sorriu.

— É o único que você respeita.

O segundo mergulho veio com o peso de uma montanha viva.

O dragão desceu sobre a ala sul, e a chama abriu um risco de destruição sobre o telhado de pedra e madeira do salão menor. Os soldados abaixo se dispersaram. Alguns ergueram escudos por puro reflexo. Outros apenas se lançaram sobre crianças e velhos para protegê-los do calor.

Foi nesse instante que Cristal disparou a primeira flecha.

Não era ainda a flecha destinada a matar. Era a flecha destinada a marcar.

A linha de luz subiu pelo ar e atingiu o flanco da criatura, não para derrubá-la, mas para forçá-la a corrigir o corpo. O dragão rugiu, girou demais o tronco e perdeu por um segundo a elegância brutal do voo.

Um segundo bastou para Erik.

Da borda da torre quebrada, ele se lançou.

Muitos depois negaram essa parte da história por parecer impossível. Mas ela permaneceu viva demais na memória dos arqueiros que estavam ali para ser tratada como invenção completa. Erik saltou da pedra alta no momento exato em que o dragão passava rente à muralha. Não o fez por fúria, nem por desespero. Fez porque conhecia a lógica do movimento, e porque sabia que certas criaturas só podem ser feridas quando ainda acreditam que o ar lhes pertence inteiro.

A mão esquerda agarrou uma protuberância de escama junto à base do pescoço. A direita veio com a espada.

O golpe não penetrou fundo.

Mas não precisava.

Serviu para duas coisas: provar que o corpo da besta podia ser tocado, e enfurecê-la o bastante para fazê-la abandonar por um momento o castelo e pensar apenas no homem preso a ela como lâmina viva.

O dragão subiu em espiral, rugindo com tamanha força que muita gente no pátio caiu de joelhos. Erik se manteve agarrado entre escamas e calor, golpeando sempre que encontrava junta, dobra ou respiração errada. A espada faiscava. O ar em volta dele parecia fogo e tempestade.

Lá embaixo, Cristal já mudava de posição.

Não olhava para Erik como quem teme perdê-lo a cada segundo. Olhava como alguém que já entendeu o que ele está fazendo e sabe exatamente o que precisa fazer em seguida. Essa era uma das coisas que mais assustavam os inimigos de Sagittaria: não o poder dos dois separadamente, mas a maneira como a vontade de um encontrava lugar dentro da do outro sem precisar de grito, ordem ou explicação.

A segunda flecha saiu mais rápido.

Atingiu a asa esquerda, na membrana entre as nervuras mais grossas. O dragão perdeu altitude por um instante. Não caiu. Mas desceu o suficiente para que os arqueiros das muralhas entendessem onde mirar.

Uma chuva de flechas comuns subiu do castelo.

A maioria ricocheteou nas escamas. Algumas se perderam no céu. Mas duas ou três encontraram fendas abertas pelos movimentos violentos da criatura. Não eram golpes mortais. Eram aborrecimentos. Dor espalhada. Ruído no corpo de algo acostumado a reinar inteiro sobre o próprio voo.

O dragão virou-se então contra Cristal.

Essa parte da lenda quase sempre é contada do mesmo jeito: dizem que, quando a criatura a viu sobre a muralha, o céu pareceu escolher entre fogo e luz. Talvez seja exagero. Talvez não. O que se sabe é que o monstro a reconheceu como ameaça maior do que os soldados, maior do que o castelo, talvez até maior do que a própria cidade.

A terceira rajada veio direta.

Cristal não recuou cedo. Esperou. Sentiu o calor se formar, o brilho crescer na garganta da criatura, a linha do ataque escolher o caminho. Só então se moveu. Girou o corpo, deixou a chama passar rente à pedra e armou, num único gesto, a flecha que os cronistas posteriores chamariam de golpe do meio-dia, embora tenha ocorrido perto do entardecer. Os cronistas às vezes preferem a beleza ao relógio.

A flecha atravessou o ar e entrou entre duas placas do peito do dragão.

Desta vez a criatura realmente gritou.

Erik aproveitou o choque. Firmou os pés contra o corpo do monstro, ergueu a espada com as duas mãos e cravou a lâmina na base do pescoço, onde a armadura natural das escamas se tornava mais fina. Não o suficiente para matar. O suficiente para obrigá-lo a descer.

Foi uma descida feia.

Sem majestade.

Sem controle.

O dragão caiu sobre a planície externa ao castelo, abrindo terra, quebrando pedra e lançando fumaça e pó em todas as direções. A muralha inteira sentiu o impacto. Gente gritou. Cavalos se agitaram. E por um breve instante até os soldados mais experientes pensaram que aquele era o ponto em que a história terminaria em tragédia.

Mas foi ali que ela começou a parecer lenda.

Erik ainda estava de pé.

Chamuscado, ferido em mais de um ponto, com a armadura marcada pelo calor e a espada escura de fuligem. Mesmo assim, avançou primeiro sobre a cabeça da criatura, forçando-a a se erguer para ele e não para o castelo.

Do alto da muralha, Cristal desceu pela escadaria externa sem esperar escolta. Os guardas tentaram acompanhá-la; ela já estava adiante. Cruzou o pátio, passou pelos portões e entrou no campo de terra e fumaça como se a distância entre ela e o dragão fosse apenas uma questão de passos já decididos.

Dizem que nesse momento o povo inteiro silenciou.

Isso talvez seja exagero. Sempre resta algum choro, alguma ordem, alguma oração fora do ritmo. Mas é possível que, por alguns segundos, a cidade tenha mesmo suspendido o próprio ruído para ver o que aqueles dois fariam.

Erik golpeou primeiro, chamando o olhar da besta.

Cristal ergueu o arco.

O dragão atacou um.

A flecha atingiu o outro lado.

A garra veio para esmagá-la.

Erik entrou por baixo.

O fogo desceu em jato.

Cristal girou no último instante.

A espada cortou uma junta.

A flecha entrou numa fissura.

E assim seguiram por tempo demais para que qualquer cronista honesto consiga contar cada movimento sem falhar.

Por isso a lenda escolheu resumir do jeito certo: eles lutaram como se já soubessem, antes de cada ataque, o lugar exato onde o outro pisaria.

Isso não quer dizer perfeição.

Quer dizer confiança.

No fim, foi o dragão quem entendeu tarde demais.

A criatura reuniu forças para um último avanço, abrindo as asas rasgadas e erguendo o corpo ferido acima dos dois como uma muralha viva de fogo e ódio. Erik, já exausto, manteve-se diante dela tempo suficiente para que o golpe viesse na direção errada. Cristal, a alguns passos de distância, firmou os pés na terra cavada, puxou a corda do arco até o limite e soltou a flecha que encerraria a noite.

Alguns dizem que foi a Flecha da Luz.

Outros juram que foi apenas uma flecha comum carregada pela mão certa.

Sagittaria nunca resolveu inteiramente essa disputa.

Talvez porque não importe.

O que importa é que a linha de ouro atravessou o campo em silêncio e entrou pela abertura que Erik sangrando havia ajudado a criar junto ao peito da criatura.

O dragão parou.

Não caiu de imediato. Não explodiu em clarão. Não se desfez como fazem os monstros nas versões covardes das histórias.

Ele apenas parou.

Como se reconhecesse, no instante final, não uma derrota qualquer, mas a presença de duas vontades que o mundo já tinha decidido não separar.

Depois tombou.

O impacto fez a terra tremer mais uma vez. Um vento de cinza e calor atravessou a planície. E, quando a poeira começou a baixar, o povo de Sagittaria viu Cristal ainda com o arco erguido e Erik ainda entre ela e o corpo da criatura, como se mesmo a morte do monstro não bastasse para fazê-lo esquecer sua função.

Ninguém festejou de imediato.

A vitória verdadeira às vezes demora um pouco para entrar nos homens.

Primeiro vieram os olhares. Depois o choro dos que entenderam que continuariam vivos. Depois os joelhos tocando o chão. Depois os nomes deles correndo de boca em boca como se precisassem ser ditos para que a cidade acreditasse no que tinha atravessado.

Cristal foi a primeira a baixar a arma.

Erik soltou a espada da posição de ataque só quando teve certeza de que o corpo da besta já pertencia mais à terra do que à fúria.

E, dizem, houve entre os dois um silêncio breve, desses que valem mais do que discurso. Nenhum juramento novo foi feito. Nenhuma grande frase foi dita. Porque algumas batalhas não produzem palavras; produzem certeza.

Desde então, quando o céu escurece cedo demais sobre Sagittaria e alguma sombra grande demais corta as nuvens, o povo ainda repete a velha história.

Conta que os dragões não pertencem ao reino.

Conta que sua vinda sempre anuncia desordem.

Conta que fogo e ruína já visitaram aquelas muralhas mais de uma vez.

Mas conta também que houve uma noite em que o castelo não caiu porque a flecha encontrou a abertura certa e a espada sustentou o segundo necessário.

E é por isso que ainda hoje, nas tavernas da fronteira, nos quartéis, nas cozinhas do castelo e nas rodas de inverno onde o povo escolhe o que recordar, esta lenda continua viva:

quando o dragão desceu sobre Sagittaria, Cristal e Erik não lutaram como dois heróis.
Lutaram como se o reino, por um instante, tivesse encontrado duas mãos para sustentar a mesma resposta.

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