Lenda

A Flecha da Luz

Antes de ser arma, a Flecha da Luz já era promessa.

A Flecha da Luz

Dizem que a primeira luz do mundo não veio do sol.

Veio de uma flecha.

Naquele tempo, quando céu e terra ainda se tocavam de modos que os homens de hoje já não compreenderiam, o mundo não tinha contorno firme. Havia montanhas, sim. Havia rios. Havia distância. Mas tudo parecia incompleto, como se a criação ainda estivesse aprendendo a escolher o que deveria permanecer separado e o que jamais poderia voltar a se misturar.

Foi então que Astra ergueu a flecha.

Alguns a chamam de deusa. Outros, de guardiã. Outros ainda dizem que ela era apenas a primeira forma que a justiça encontrou para se tornar visível. Sagittaria nunca resolveu essa disputa, e talvez não precise resolvê-la. Certas presenças ficam maiores quando não cabem por inteiro em nome nenhum.

O que todos concordam é isto:

quando Astra puxou a corda, o mundo prendeu a respiração.

A flecha atravessou o vazio e, por onde passou, separou aquilo que antes vivia misturado. O alto foi afastado do chão. A eternidade foi apartada do tempo. O amor foi distinguido do medo. A memória foi colocada diante do esquecimento como quem diz: daqui para frente, as coisas terão de escolher.

Foi por isso que a flecha jamais foi lembrada como simples arma.

Armas ferem.

Aquela revelava.

E tudo o que é revelado cedo ou tarde cobra seu preço.

Dizem também que, quando a flecha abriu o mundo, dela nasceram sinais. Não pedaços de metal, não relíquias prontas, mas linhas de verdade espalhadas pelas coisas. Algumas ficaram guardadas nas montanhas. Outras dormiram em lagos fundos. Outras ainda entraram nas raízes do reino que um dia seria chamado Sagittaria. Por isso certos lugares tremem quando a luz antiga os toca. Por isso certas pedras aquecem por dentro. Por isso certos nomes sobrevivem mesmo quando tudo ao redor tenta apagá-los.

Mas toda luz projeta uma sombra.

E foi quando o brilho da criação se tornou visível que Tharok passou a desejá-lo.

Não desejava o mundo por amor ao mundo.

Desejava aquilo que nele não lhe pertencia: a harmonia, a forma, a possibilidade de permanecer inteiro diante do olhar da própria luz. E porque não podia possuir isso, quis corrompê-lo. Foi assim que começaram os tempos em que a flecha deixou de ser apenas princípio e passou a ser lembrada como necessidade.

As velhas histórias dizem que Astra não disparava a flecha para destruir primeiro.

Disparava para revelar.

Quando a ponta atingia uma criatura tocada pela treva, não arrancava dela apenas sangue ou vida. Arrancava máscara. Exibia aquilo que o mal tentava esconder de si mesmo. Por isso os antigos temiam a Flecha da Luz até quando rezavam por ela. Não porque fosse cruel. Mas porque nenhuma mentira sobrevive ao encontro com aquilo que foi feito para separar verdade de ilusão.

Essa é a parte que o povo mais gosta de contar às crianças:

a de que a flecha dourada podia cortar uma noite inteira e fazer a escuridão confessar o próprio nome.

Mas os velhos sábios contavam diferente.

Diziam que a flecha não vinha para dar conforto aos justos. Vinha para submetê-los à mesma verdade. E que todo aquele que a visse de perto seria obrigado a encarar não só a sombra do inimigo, mas também a própria parte ferida, a própria dúvida, a própria insuficiência.

Por isso nem todos queriam que ela voltasse.

Alguns oravam pelo retorno da luz.

Outros tremiam só de imaginar que o mundo fosse posto novamente diante de algo que não pode ser negociado, escondido ou adiado.

Com o passar das eras, a flecha deixou de aparecer inteira na memória dos homens. O que restou foram fragmentos. Uma inscrição em parede antiga. Um símbolo gravado em ruína. Um verso repetido em templo abandonado. A imagem de um brilho atravessando o peito de uma criatura monstruosa num canto de tapeçaria velha. Um juramento quebrado feito diante de um lago. Uma lenda sussurrada ao redor do fogo por gente que não sabia mais distinguir história de oração.

Foi assim que Sagittaria a herdou:

não como objeto preso a cofre,
mas como promessa espalhada.

As mães do reino diziam aos filhos, quando o medo vinha cedo demais:

— Toda sombra teme ser vista.

Os cavaleiros repetiam entre si, antes de entrar em batalha:

— A luz não mata por pressa. Revela por necessidade.

Os arcanos mais antigos, quando encontravam símbolos que brilhavam sem fogo, baixavam os olhos e lembravam a regra que não ousavam pronunciar alto demais:

— Quem pede a volta da flecha deve estar pronto para perder o direito de mentir para si mesmo.

E, ainda assim, a lenda cresceu.

Porque os homens podem temer a verdade, mas continuam chamando por ela quando o mundo escurece demais.

Dizem que, em certas gerações, a Flecha da Luz quase voltou.

Houve um guerreiro que encontrou uma ponta de ouro enterrada no coração de uma árvore atingida por raio, mas fugiu antes de tocá-la. Houve uma rainha que viu o contorno da flecha no fundo de um espelho e ordenou que o espelho fosse quebrado. Houve um oráculo que passou a vida inteira copiando antigos versos na esperança de descobrir se a flecha escolheria linhagem, pureza, coragem ou desespero.

No fim, nenhum deles a recebeu.

Porque a lenda guardava uma condição mais dura do que todas.

A flecha não voltaria à mão mais forte.

Nem à mais sábia.

Nem à mais nobre por si só.

Voltaria à mão que ainda fosse capaz de puxá-la sem desejar possuí-la.

E essa condição, dizem, foi o que manteve Sagittaria viva por tanto tempo. Porque enquanto a flecha dormia, o reino ao menos podia tentar aprender que luz verdadeira não é domínio — é responsabilidade.

Quando os ventos mudaram sobre o lago, quando os sinais começaram a reaparecer nas pedras antigas, quando o nome de Tharok deixou de ser apenas murmúrio e voltou a pesar sobre o reino como lembrança ruim de uma ferida que nunca fechou inteira, muita gente acreditou que o fim estava chegando.

Talvez estivesse.

Ou talvez fosse só o começo daquilo que a lenda prometera desde o princípio: o momento em que a luz reencontraria o seu caminho.

As versões populares gostam de contar que a flecha surgiu inteira num clarão sobre as muralhas.

As versões mais poéticas dizem que ela desceu do céu no exato instante em que o reino perdeu a coragem de se enganar.

Outras, mais silenciosas, preferem dizer apenas que a flecha sempre esteve aqui — nas montanhas, nos juramentos, nos guardiões, na linhagem, nas ruínas, nos livros interditados — esperando não a hora certa, mas a pessoa certa.

Talvez essa última versão seja a mais próxima da verdade.

Porque a Flecha da Luz nunca foi só uma peça de guerra.

Foi uma linha traçada entre aquilo que o mundo pode continuar fingindo... e aquilo que será obrigado a reconhecer.

Foi por isso que os antigos a chamaram de bênção e fardo.

Foi por isso que reis a desejaram e sábios a temeram.

Foi por isso que, mesmo reduzida a símbolo, a lenda jamais morreu.

E é por isso que Sagittaria ainda repete, em tempos de paz ou presságio, a frase mais antiga de todas:

a Flecha da Luz não existe para vencer a escuridão por força.
Existe para obrigá-la a ser vista.

Alguns acreditam que isso basta.

Outros sabem que não.

Porque, quando a sombra enfim é revelada, alguém ainda precisa ter coragem de permanecer diante dela.

E é nesse ponto que toda lenda deixa de ser apenas lenda.

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