Dizem que a névoa nem sempre cobre o caminho.
Às vezes, ela escolhe alguém.
Foi assim com Cristal, na noite em que a floresta ao sul de Sagittaria deixou de parecer apenas floresta e passou a se comportar como fronteira. Não a fronteira comum, feita de pedra, cerca ou vigia. Outra. Mais funda. Mais antiga. Daquelas que o mundo mantém escondidas até o momento em que alguma presença decide atravessá-las.
Naquele tempo, Cristal já carregava o arco.
Já conhecia o peso do olhar do povo.
Já sabia como a esperança pode ser cansativa quando o reino a coloca inteira sobre os ombros de uma só pessoa.
Mas ainda havia medos que não se resolviam com flecha.
E foi por isso que entrou sozinha entre as árvores.
A noite não estava totalmente escura. Havia uma claridade azulada pairando entre os troncos, como se a lua tivesse se dissolvido cedo demais no ar frio. A névoa rastejava rente ao chão e se enrolava nas raízes grossas como água tentando aprender a ficar de pé.
Cristal caminhava devagar.
O arco estava às costas. A mão direita permanecia livre, próxima da adaga curta presa à cintura. Não ouvira chamado. Não seguia rastro visível. Havia apenas aquela sensação insistente — a de que alguma coisa a observava não de um ponto fixo, mas de todos os espaços onde a névoa parecia mais espessa do que devia.
Alguns passos adiante, ela parou.
A floresta havia silenciado de um jeito errado.
Não era ausência comum de pássaros ou vento. Era supressão. Como se o lugar inteiro tivesse prendido a respiração para ver se ela notaria primeiro.
Cristal notou.
Virou-se devagar.
Nada.
Só árvores altas. Troncos antigos. Névoa. Uma linha de luz pálida atravessando os galhos.
Seguiu.
Foi então que a viu pela primeira vez.
Não inteira.
Um contorno feminino entre os troncos, imóvel demais para ser pessoa comum, alto demais para confundir-se com sombra casual. Vestia algo longo, escuro, indistinto, como se tecido e fumaça tivessem escolhido existir juntos. A cabeça trazia uma coroa ou galhada fina, delicada e ameaçadora ao mesmo tempo. O rosto, porém, era o que mais paralisava.
Branco.
Liso.
Sem traço humano suficiente para consolar.
Cristal não levou a mão ao arco ainda.
Permaneceu olhando.
A figura também não se moveu.
Entre as duas, a névoa passava devagar, como se obedecesse mais à presença daquela dama do que ao frio da noite.
— Quem é você? — Cristal perguntou.
A floresta não devolveu eco.
A figura não respondeu.
Mesmo assim, a pergunta pareceu entrar nela, como pedra jogada em água funda demais para devolver ruído à superfície.
Cristal deu um passo à frente.
A forma desapareceu.
Não correu.
Não se desfez como fumaça simples.
Apenas deixou de estar onde estava.
O ar ficou mais frio.
Cristal girou o corpo e então a viu de novo — agora atrás de uma árvore maior, do outro lado da trilha. A mesma postura. O mesmo rosto sem rosto. A mesma imobilidade que insultava o instinto humano de medir perigo por movimento.
A arqueira puxou o arco das costas.
Dessa vez a figura inclinou levemente a cabeça.
Foi um gesto mínimo. Mas bastou para que toda a floresta parecesse mudar de posição ao redor delas. Os troncos ficaram mais próximos. A névoa mais densa. O chão mais fundo do que antes. Cristal sentiu o peso do próprio corpo como se algo tentasse atrasar seus reflexos de dentro para fora.
Então veio a voz.
Não da boca da criatura.
Da névoa.
— Ainda não.
Cristal endureceu o maxilar.
A voz era feminina, baixa e bela de um jeito errado — como certas músicas que atraem mais pelo perigo do que pela doçura.
— Mostre-se — disse ela, erguendo o arco.
A Dama do Véu Sombrio avançou um passo.
A névoa ergueu-se ao redor de seu corpo como se a servisse. O vestido escuro parecia descer em linha contínua até o chão, sem peso real. As mãos, finas demais, surgiam por baixo das mangas como galhos pálidos. E o rosto continuava vazio, branco, liso, insuportavelmente calmo.
Cristal armou a flecha.
A ponta brilhou fraco.
A criatura parou de novo.
Por um instante, as duas permaneceram assim: a arqueira de Sagittaria diante da entidade da névoa, luz dourada contra brancura sem alma, vontade humana contra uma presença que parecia antiga demais para se importar com ameaça comum.
Então a floresta atacou.
Não com bicho, garra ou fogo.
Com distorção.
As árvores à esquerda pareceram se alongar. O chão à frente cedeu visualmente como se abrisse abismo onde antes só havia raiz e pedra. Por um segundo, Cristal viu a si mesma muitos passos mais adiante, caída entre névoa e galhos, como se o lugar tentasse lhe oferecer não imagem verdadeira, mas a ideia de um futuro já vencido.
Ela fechou os olhos.
Abriu de novo.
A ilusão continuava.
Foi aí que entendeu.
A Dama não queria matá-la primeiro.
Queria desorganizar seu senso de direção. Queria quebrar sua certeza. Queria fazer com que o corpo de Cristal deixasse de confiar naquilo que os olhos entregavam.
Era um ataque mais cruel do que fogo.
Porque flechas vencem distância.
Não vencem facilmente aquilo que se move dentro da percepção.
Cristal respirou fundo.
Lembrou-se do treino. Da pedra firme sob o pé. Do peso do arco na mão. Do modo como Erik sempre dizia que pânico começa quando o corpo aceita obedecer ao quadro errado.
A flecha baixou um pouco.
Não por rendição.
Por escolha de mira.
Ela já não tentava atingir o corpo da Dama. Tentava atingir a única coisa que ainda parecia constante naquela floresta alterada: o espaço entre as duas.
A entidade pareceu perceber tarde demais.
Cristal soltou.
A flecha atravessou a névoa e entrou não no peito da criatura, mas no coração da distorção. A luz abriu no ar uma linha dourada, curta e limpa, como costura rasgando pano escuro. No mesmo instante, as árvores voltaram ao lugar certo. O chão recuperou forma. A falsa imagem de derrota desapareceu.
A Dama recuou.
Pela primeira vez.
Não houve grito. Não houve fúria. Mas a névoa ao redor dela vacilou, como se a própria floresta tivesse sentido o golpe.
Cristal já armava a segunda flecha.
— Você não é a floresta — disse, a voz mais baixa e mais firme. — Só está usando ela.
A criatura inclinou a cabeça de novo.
Dessa vez, houve algo quase humano no gesto.
Quase.
A voz voltou, vindo de todos os lados ao mesmo tempo:
— E você ainda não entende o que está carregando.
A névoa se adensou de uma vez e correu pelo chão em direção às pernas de Cristal como maré fria. Não prendia por força. Subia devagar, tentando roubar equilíbrio, concentração e temperatura. A arqueira deu meio passo atrás e sentiu o mundo responder errado por um segundo.
Não bastava atirar de novo.
Precisava romper a presença.
Cristal firmou os pés, ergueu o arco pela terceira vez e puxou a corda até o limite. O brilho na flecha cresceu um pouco mais do que antes, não por espetáculo, mas por decisão. A luz não vinha só da arma. Vinha do fato simples e brutal de que ela se recusava a ceder o próprio corpo ao medo que a névoa tentava plantar.
— Então olhe direito — disse.
Soltou.
A flecha entrou reta.
Não atravessou carne. Não havia carne bastante ali para isso. Atingiu o centro branco do rosto vazio da Dama, e o impacto espalhou luz pela forma inteira como rachadura acesa dentro de vidro frio.
A floresta inteira respirou.
A entidade recuou dois passos, depois mais um. O vestido escuro começou a desfazer-se nas bordas. A galhada ou coroa perdeu nitidez. As mãos se dissolveram primeiro, seguidas da linha do corpo. O rosto branco permaneceu por último, suspenso na névoa como lua morta — e então também se partiu em fragmentos de brancura opaca que o vento levou entre os troncos.
O silêncio voltou.
Desta vez não errado.
Apenas cansado.
Cristal permaneceu parada no mesmo lugar, arco ainda erguido, esperando outro ataque que não veio. Aos poucos, o frio perdeu a violência. A névoa recuou até a altura normal do chão. O vento reaprendeu a atravessar os galhos. Muito longe, um pássaro noturno soltou um som curto, como se testasse se o mundo já podia usar a própria voz de novo.
Cristal baixou o arco.
Não havia corpo no chão.
Não havia sangue.
Não havia troféu.
Restava apenas a sensação nítida de que encontrara alguma coisa que não pertencia ao tipo de inimigo que se derrota de uma vez.
Ela olhou ao redor da clareira.
No tronco da grande árvore diante da qual a Dama aparecera primeiro, havia uma marca fina, branca, desenhada na casca como se a presença tivesse deixado ali um sinal involuntário ao partir. Não era runa completa. Não era símbolo que pudesse ser lido sem risco. Parecia mais um rasgo delicado no desenho normal da madeira.
Cristal não tocou.
Guardou a imagem.
Então começou a volta.
No caminho de saída, a floresta já parecia floresta de novo. Ainda escura. Ainda fria. Ainda tomada por névoa em certos pontos. Mas honesta dentro da própria ameaça. O que a Dama tinha trazido consigo não era apenas medo. Era uma versão do medo capaz de vestir beleza, quietude e distância sem nunca precisar mostrar a violência inteira.
Por isso, dizem os velhos, aquela lenda nunca foi contada como simples história de assombração.
Não era sobre fantasma qualquer.
Era sobre o tipo de presença que espera a pessoa certa entrar sozinha numa floresta para então se aproximar sem pressa, não para matá-la primeiro, mas para ver se ela sabe continuar sendo ela mesma quando o mundo ao redor começa a perder contorno.
Quando Cristal voltou ao castelo, não contou a todos.
Falou pouco.
O suficiente para que os guardas evitassem a floresta sul por algumas semanas. O suficiente para que Problemática passasse a pedir mais relatórios sobre névoa fora de época. O suficiente para que Erik a observasse em silêncio por mais tempo do que de costume, como quem sabe reconhecer quando um combate deixou menos ferida no corpo do que no modo de olhar.
O povo, porém, soube da história de outro jeito.
Soube pelo rumor.
Pela forma.
Pelo medo embelezado pela distância.
E assim nasceu a lenda da Dama do Véu Sombrio.
Alguns passaram a dizer que ela era uma rainha antiga, punida por desejar demais o que o Véu não dava. Outros juravam que era uma sombra feminina enviada para medir se a portadora do arco já podia ser quebrada por dentro. Havia também quem dissesse que ela nunca existiu como criatura inteira — era apenas a forma que a névoa escolhia quando precisava testar a coragem de alguém.
Sagittaria nunca resolveu a questão.
Talvez porque não precisasse.
O que importava era a parte que permanecia a mesma em todas as versões:
Cristal entrou na floresta sozinha.
A Dama esperou entre as árvores.
E, quando a névoa tentou roubar do mundo sua forma certa, foi a luz da flecha que rasgou primeiro o engano.
Desde então, mães do reino ainda repetem às filhas em noites de vento branco:
se um dia a névoa parar de parecer apenas névoa, não corra cedo demais.
Há presenças que crescem quando percebem que o medo encontrou o corpo antes da coragem.
E os mais velhos, quando a floresta do sul fica quieta além do normal, ainda dizem a frase que nenhuma sentinela gosta de ouvir depois do escurecer:
a Dama não procura quem está perdido.
Procura quem ainda pode ser provado.